Aventura no
topo da África
O pequeno Boing 737 da
Air Tanzânia - cujo logotipo na cauda era uma girafa -, procedente da África do Sul,
aterrissou no Aeroporto Internacional de Dar El Salaan, capital do país, às 22h15min.
Desci. Carregava apenas uma mochila nas costas e uma idéia na cabeça. Na mochila: 100
objetos que seriam usados nos próximos dias; na cabeça: escalar o Kilimanjaro, a
montanha mais alta do continente africano.
Troquei 200 dólares
americanos por 122.200 xelins, a moeda local. Ao sair do aeroporto, como era costume na
África, fui rodeado por uma dezena de pessoas oferecendo transporte.
- Vou para Moshi,
amanhã. Preciso de um hotel perto do local onde saem os ônibus.
No Hotel Kilimanjaro
preenchi uma ficha que pedia, entre outras informações, qual era a minha tribo. Um
rapaz, encostado no balcão, perguntou-me se ia escalar o Kilimanjaro. Sim, pretendia
escalá-lo.
- Trabalho para uma
companhia que organiza expedições ao Kilimanjaro, em Moshi. Amanhã vou buscar outra
pessoa no aeroporto. Você pode integrar o mesmo grupo.
No dia seguinte
Youssouf Athuman Juma, o tal rapaz, bateu a minha porta às 8h30min. Eu já estava pronto.
Apanhou minha mochila, descemos. Na portaria outros três rapazes esperavam. Saímos para
a rua, por dentro de uma feira livre, onde negociava-se porcos, galinhas, arroz, tecido,
roupas feitas e peças para automóveis, além de todo tipo de comida existente na
Tanzânia.
Chegamos ao local onde
saiam os ônibus: uma praça no centro da cidade que mais parecia um formigueiro, tantas
eram as pessoas circulando. A metade eram passageiros, a outra vendedores. Os ônibus iam
chegando e despejando mais gente. E os que partiam, só saiam depois que estivessem
lotados. Entramos num Scania imenso, super colorido, com vídeo a bordo, a última
moda na África. Fiquei conhecendo outro rapaz, Fadhili Anderson, que nos acompanharia
até Moshi. Paguei a passagem: 15 dólares.
Já dentro do ônibus,
fui apresentado a Horst Schejok. A partir daqui viajaríamos juntos, nos tornando grandes
amigos. Horst, 51 anos, treinador de boxe na Alemanha, era um aventureiro profissional.
Compramos, pela janela,
três litros de água mineral. Ás 9h30min o ônibus partiu, completamente lotado. O dia
estava ensolarado e fazia muito calor. Na única vez em que paramos Fadhili orientou-nos
para que não bebêssemos nem comêssemos nada, não era limpo. 590km e 7h depois chegamos
a Moshi, a pequena cidade ao pé do Kilimanjaro, ponto de partida para sua escalada.
Fadhili nos colocou num taxi e nos levou ao Kindoroko, um ótimo hotel.
Dividimos um
apartamento. Pagamos a diária: 10 dólares - para os dois. Nos instalamos e descemos para
jantar, cortesia do hotel. Comi um ótimo filé com fritas e tomei duas cervejas
Kilimanjaro. Horst comeu peixe e tomou duas Mirindas. O hotel tinha sua própria agência
de turismo. Fomos negociar com Fadhili. Queríamos montar uma expedição de seis dias
para escalar o Kilimanjaro, que incluísse guias, carregadores, cozinheiro, alimentação
e a entrada no Parque. A princípio nos pediram 620 dólares para cada um. Horst achou
muito caro. Regateamos. Fechamos por 500 dólares.
Primeiro Dia
Acordamos às 7h.
Arrumei as mochilas. A grande, de 55 litros, que seria levada por um carregador, e a
pequena, de 35 litros, que seria levada por min, com minhas coisas mais valiosas, como
filmadora, máquina fotográfica, GPS, documentos e dinheiro. Fomos apresentados ao nosso
guia, Hamisi Silvano. Saímos do hotel às 9h, num velho táxi, rumo a principal entrada
do Parque Nacional do Monte Kilimanjaro, em Marangu, 37km ao norte, 1.800m de altitude.
Antes de chegarmos à
entrada do parque, passamos pela primeira das suas cinco zonas de vegetação,
correspondente as suas várias altitudes. Situado abaixo dos 1.800m, este ecossistema,
anteriormente floresta, estava agora coberto pelas plantações dos chagas, a tribo que
habitava as encostas baixas da montanha.
Ás 12h30min,
preenchidas as formalidades e assinado o livro de registro, nos autorizaram a entrar no
Parque. Nos reunimos: eu, Horst, Silvano, o guia principal; Abdalah, o guia auxiliar, mais
os carregadores e o cozinheiro. Finalmente estava iniciando a escalada do Kilimanjaro. O
dia estava ensolarado. Fazia 24 graus.
O monte Kilimanjaro,
formado há 750 mil anos, é a mais alta montanha isolada do planeta - as outras estão
todas encravadas em grandes cordilheiras. Na fronteira com o Quênia, está três graus ao
sul do Equador, e se estende por 80Km. Seu cume central - Kibo -, com sua coroa
eternamente nevada, é o mais novo dos vulcões. Mede 5.895m, o ponto mais alto da
África. Sua última erupção foi há 100 mil anos.
O primeiro trecho da
escalada - correspondente a sua segunda zona de vegetação -, de 7km, ficava dentro de
uma floresta tropical, muito úmida, com árvores altíssimas e muitos macacos. Com 96% de
toda a chuva que caia na montanha, esta era sua área mais rica . Ali se concentrava a
maior parte da vida selvagem do Kilimanjaro. Embora existissem mais pássaros do que
mamíferos, não era difícil encontrar leopardos, elefantes e búfalos.
Caminhávamos em grupo.
Iniciamos por uma pequena estrada que logo se transformou numa trilha larga com um leve
aclive. Após duas horas de caminhada, quando paramos para almoçar - um sanduíche, um
pequeno pastel de carne moída com legumes e uma banana -, a temperatura havia baixado
para 16 graus. A partir daqui a trilha estreitou muito. A floresta agora estava
fechadíssima. As raízes das árvores cruzavam o caminho, segurando a terra e formando
pequenos degraus. O piso estava muito úmido, mas não tinha barro.
Às 16h chegamos ao
primeiro abrigo, em Mandara, 2.727m, local do nosso pernoite. Fazia 11 graus e uma neblina
cobria todo o acampamento. As pequenas cabanas, um presente da Noruega à Tanzânia, eram
de estilo alpino, com o teto inclinado, para não acumularem neve. As casas eram pintadas
de marrom e no telhado havia um captador de energia solar que alimentava uma pequena
bateria no subsolo, o suficiente para acender três bicos de luz no seu interior. Nos
instalamos numa cabana com quatro camas e ficamos torcendo para que fôssemos os únicos.
Tivemos sorte. Os guias, os carregadores e os cozinheiros ficavam em outra cabana.
Havia também uma casa
maior, usada como refeitório, com uma pequena varanda, onde Silvano nos ofereceu chá com
bolachas e pipocas. Às 18h jantamos: sopa de legumes, espaguete com repolho e uma banana
de sobremesa. Tomamos muito chá. Às 19h fazia nove graus. Nos deitamos, na maior
escuridão, pois a luz na cabana não estava funcionando e tanto a minha lanterna quanto a
do Horst pifaram.
Segundo Dia
Acordamos às 7h.
Estava chovendo e fazia muito frio. Numa cabana maior havia duas latrinas, um chuveiro -
que ninguém ousou experimentar - e uma pia, com a água mais gelada do mundo. Não me
lavei, tomei um choque térmico! Nos arrumamos para a chuva. Coloquei minhas botas
impermeáveis com solado aderente e a capa de náilon, esta por cima da pequena mochila.
Às 8h45min saímos, debaixo dágua. Muito barro. Cruzamos uma pequena pinguela de
madeira, sobre um córrego onde corria uma água limpíssima.
A paisagem, aos poucos,
foi ganhando novos contornos e de floresta tropical úmida passou para tropical de
altitude. As árvores, agora mais raras, tinham parasitas em forma de chorão caindo dos
galhos. Não havia mais flores. Pouco a pouco o tempo foi limpando e às 9h30min saímos
da floresta. O verde escuro da mata passou a verde claro do capim. Já podíamos avistar
as montanhas ao nosso redor. Quinze minutos depois vimos, pela primeira vez, o pico nevado
do Kilimanjaro. O GPS marcava 3.000m de altitude. Começava aqui o nosso processo de
aclimatação.
A medida que se sobe a
quantidade de oxigênio no ar diminui e o organismo precisa passar por uma grande
transformação metabólica e química para aumentar a quantidade de glóbulos vermelhos,
que conduzem o oxigênio no sangue, transportando-o desde os pulmões até os tecidos
(cérebro, músculos, etc.). A respiração aumenta sua freqüência e amplitude e o
coração acelera o ritmo das suas batidas para captar o máximo possível do oxigênio
que possa existir no ar.
O Horst e o Abdalah se
foram na frente. Eu, que andava num ritmo mais lento, agora caminhava ao lado do Silvano,
nosso simpático guia. Conversamos muito. Com 22 anos, já se considerava um veterano.
Calculava ter subido mais de 200 vezes. O pai, moçambicano, justificava seu nome
português, embora não falasse a língua pátria. Tirei muitas fotos. Ele sabia o nome
científico de cada planta que fotografava pelo caminho.
A medida que andávamos
a trilha se tornava mais difícil. Não tão vertical, mas com muitas pedras. Estávamos
num imenso planalto, pulando de uma montanha para outra, contornando seus picos para que a
subida não ficasse tão íngreme. Nesta altura, o Kilimanjaro é formado por mais de 250
pequenas elevações. São pequenas montanhas que vão se sobrepondo e formando a silhueta
da grande montanha. As vezes descíamos um pouco para novamente subir. Às 12h15min
paramos meia hora para o almoço. Estávamos agora num outro ecossistema, formado por uma
vegetação baixa com muitos arbustos e gramíneas. Daqui para frente não teríamos mais
sombra.
Chegamos ao segundo
abrigo, em Horombo, a 3.780m de altitude, 12km e 5h15min depois da saída. O acampamento
estava dentro de uma grande nuvem, não se vendo além de uns 10m. Horst que, como sempre,
andava na frente, já estava na cabana. Nos instalamos. Tomei um banho de canequinha,
vesti roupas limpas.
Jantamos. Às 19h já
estávamos deitados. Coloquei o walkman e consegui sintonizar a Rádio Moçambique,
retransmitida por uma pequena estação situada no norte do país, a uns 2.000km de
distância. Estavam transmitindo a partida de futebol entre Brasil e Moçambique,
categoria sub-16, pelos jogos dos PALOPs (países de língua oficial portuguesa), que se
realizavam em Maputo. Resultado: Moçambique 1 X 0 Brasil.
Terceiro Dia
Dia de descanso e
aclimatação. Acordei às 8h30min com as batidas do Silvano na porta da cabana. Fazia
nove graus, mas durante a noite esteve bem mais frio. Levantei, me vesti, fui ao banheiro,
a uns 50m. Fiz a barba na água gelada e passei protetor solar número 30. O sol, nesta
altitude, podia se tornar um elemento muito perigoso. Quanto mais subíamos, mais
rarefeito e limpo o ar se tornava. Como conseqüência, ficávamos mais expostos aos raios
ultravioletas que atingem a Terra, o que podia causar sérias queimaduras nas partes
expostas do corpo.
O sol estava muito
forte, dia claríssimo, porque as nuvens estavam abaixo do nosso nível, formando um lindo
tapete branco. Fiquei uma hora caminhando, impressionado com a aridez do local. Filmei,
fotografei e olhei de binóculos. Ao voltar para a cabana, olhando em frente, deparei-me
com a crista gelada do Kilimanjaro, a 14km de distância.
Os gregos foram os
primeiros a mencioná-lo. Muitos anos mais tarde, um cronista chinês escreveu que nas
terras a oeste da ilha de Zanzibar havia uma grande montanha. A seguir vieram os árabes,
em busca de ouro. Em 1497, com a chegada de Vasco da Gama, os portugueses sucederam aos
árabes. Baseado nas explorações portuguesas, o geógrafo espanhol Fernandes de Encisco
escreveu que a oeste de Mombasa (Atualmente o maior porto marítimo do Quênia.) existia
uma grande montanha que, talvez, contivesse a nascente do rio Nilo. Ele estava errado, mas
a frenética procura pela nascente do Nilo colocou o Kilimanjaro na rota dos aventureiros
europeus.
O primeiro a ver as
neves do Kilimanjaro foi um missionário inglês, Johannes Rebmann, em 1848. De volta a
Londres, foi ridicularizado, pois diziam ser impossível haver neve ao sul do equador. O
primeiro a tentar escalá-lo foi o Barão Karl Klaus von der Decken, um explorador
alemão, em 1861. Subiu até 4.300m. O primeiro a deixar sua marca nas neves do
Kilimanjaro foi o missionário Charles New, que chegou a 4.420m. O primeiro a atingir seu
topo foi o geógrafo alemão Hans Meyer, em 1889.
Almoçamos às 13h:
pão frito com ovo (uma espécie de rabanada sem açúcar e canela), tomate, pepino e
batatas fritas. E muito chá. Os líquidos ajudavam na adaptação do organismo ao ar
rarefeito. Bebíamos cinco litros de água por dia. Dormi duas horas. Levantei às 16h e o
acampamento já estava novamente envolto pelas nuvens. Tomamos chá com pipocas, sentados
na escada da cabana e observando pequenos roedores que se alimentavam dos restos de comida
deixados pelos montanhistas. Os ratinhos, com pequenas listras coloridas no lombo eram,
por sua vez, alimento para os gaviões que sobrevoavam o local.
Conversei um pouco com
Abdalah, 21 anos, nosso guia assistente. Era o mais jovem de uma família de cinco
irmãos. Extrovertido, gostava de regue, rap e Bob Marley. Adorava futebol, em especial o
brasileiro. Pediu-me para que, quando descêssemos, o ensinasse a dominar uma bola.
Encerrada a expedição, de volta a Moshi, dei-lhe de presente uma camiseta da seleção
Brasileira.
Jantamos às 17h30min:
sopa, panquecas, espaguete com molho de legumes, galinha frita, batatas cozidas e, de
sobremesa, banana frita. E, como sempre, bebemos muito chá. Foi a melhor refeição que
fizemos na montanha. Comemos tanto que tivemos que dar uma pequena caminhada pelo
acampamento. A visão estava lindíssima. No lado direito, olhando-se para cima, viam-se
os contornos das montanhas; no lado esquerdo, olhando-se para baixo, as nuvens brancas.
Às 19h30min já estava deitado. Fazia sete graus.
Quarto Dia
Saímos às 8h55min,
depois de um farto café com salame alemão, uma preciosidade que Horst trouxera de
Frankfurt. O caminho entre Horombo e Kibo, última parada antes do ataque final ao cume da
montanha, era o mais difícil. Nesta altura estávamos no território das lobélias e dos
Senecios, uma árvore típica do Kilimanjaro. Atingindo cerca de três metros de altura,
elas sobrevivem até a altitude de 4.000m.
As primeiras duas horas
foram uma continuação do caminho anterior, com muitas pedras. Às 10h30min cruzamos a
última vertente de água. Aproveitamos para encher os cantis. A partir deste trecho,
água só para beber. Daqui para a frente, não existia mais vegetação nem vida animal.
Até a lenha precisava ser carregada.
Às 11h entramos num
deserto infindável, um vale no colo dos dois principais vulcões do Kilimanjaro: Kibo e
Mauenzi. Muita poeira, sol forte, vento de frente, dificultando a respiração. Silvano
passou a caminhar ao meu lado, bem próximo, formando um ângulo que me protegia um pouco
do vento. Além disso, a paisagem era muito monótona. Estávamos a mais de 4.000m de
altitude. A medida que nos aproximávamos do Kibo a inclinação ia aumentando e a terra
solta do deserto se transformando num chão formado por fragmentos de pedras vulcânicas.
Era um piso muito irregular que dificultava ainda mais a caminhada.
Pela primeira vez senti
uma pequena dor muscular na perna direita. Alias, estava surpreso com minha performance
física, herança da minha condição de ex-atleta, reforçada por um leve treinamento
antes da viagem. Até aqui, tudo bem. Ainda não havia sentido o famoso e temido Mal da
Montanha.
Chegamos ao Kibo, um
pequeno e rústico acampamento, ao pé do cume, às 16h. Não existia água, só duas
latrinas secas nos fundos. Estava ventando e a temperatura era de dois graus. Nos
instalamos junto com outras duas expedições, uma formada por dois casais franceses e a
outra por três rapazes ingleses. Todos muito bem equipados. Os ingleses tinham até uma
garrafa de oxigênio, para o caso de alguma emergência. Dentro da casa de pedra existiam
sete beliches, uma mesa e alguns bancos. Abdalah nos serviu uma térmica de chá com
bolachas. Silvano veio nos avisar que iríamos partir a meia noite e trinta, então era
bom descansarmos um pouco.
Estava escurecendo
quando saímos da cabana para tirar algumas fotos e filmar o crepúsculo. Fazia zero grau
e queria testar minhas roupas. No início, meu medo era de alguma intoxicação alimentar.
Depois, tive medo do mal da altitude. Agora, minha preocupação era não ter as roupas
necessárias para enfrentar o frio. Voltei feliz, não senti frio.
Antes de deitarmos, os
três guias fizeram uma pequena reunião e nos deram as últimas instruções:
- Não comam nada além
de algumas bolachas e um pouco de chá. Durante a escalada, bebam muita água, mas em
pequenas quantidades, nunca mais do que dois golos de cada vez, senão vão vomitar. Comam
chocolate, também em pequenas quantidades. E lembrem: não parem por tempo superior a um
minuto, pois, com o frio intenso, o corpo esfria e vocês não conseguirão mais caminhar.
Precisamos chegar ao cume antes do sol nascer, enquanto a terra ainda está congelada,
caso contrário derraparemos montanha abaixo. Boa sorte a todos nós.
Às 18h estávamos
deitados.
Quinto dia
Estou na praia,
estirado. Mulheres lindas passam ao meu lado. Está muito quente. Tomo uma cerveja,
geladíssima. Aos poucos, vindo de muito longe, ouço um fio de voz me chamando. De
início tímida, a voz agora estava mais forte. Muito forte. E se não bastasse, alguém
tocou-me na perna.
- Acorda! Acorda!
Reconheço este
sotaque. Alemão misturado com espanhol. Era o Horst, me chamando.
- Que horas são? - fui
perguntando, mais para ganhar tempo.
- São meia noite e
trinta.
- Quantos graus?
- Aqui dentro dois
abaixo de zero. Lá fora deve estar uns cinco negativos.
- E no cume?
- A previsão é menos
10. Temos muito vento. Isto é bom sinal. Não vamos ter neve.
Os alemães e seu senso
de humor.
Saltei para fora do
saco de dormir. Precisava colocar apenas as botas, os óculos, o gorro e o casaco, pois
já estávamos dormindo vestidos. O pessoal das outras duas expedições se movimentavam.
Os cozinheiros entraram com térmicas de chá e algumas bolachas. Arrumamos o equipamento.
Nos reunimos no lado de fora da cabana. Como menor grupo, saímos na frente. Abdalah
puxava a fila, seguido por Horst, eu e Silvano. O guia principal segue sempre na
retaguarda, o que me dava uma certa segurança. Afinal, às minhas costas caminhava uma
pessoa muito experiente. A lua cheia iluminava o caminho, dispensando, inclusive, o uso
das lanternas. A primeira hora de caminhada foi tranqüila pois a terra estava dura, o
frio era suportável e o aclive também.
Caminhávamos em fila,
sempre colocando o pé sobre a pisada do que ia na frente, compactando uma trilha. A cada
passo avançávamos 10cm. Silvano dizia que nosso desafio não era escalar um pico, mas
apenas colocar o pé direito 10cm à frente do esquerdo. Feito isto, passávamos à
próxima etapa, colocar o pé esquerdo 10cm à frente do direito. E assim sucessivamente.
Avançávamos lentamente, como se andássemos em câmara lenta. Mas avançávamos. E cada
novo passo era uma grande conquista. Atrás de nós vinham as outras duas expedições.
Alcançamos o Willians
Point. Estávamos a 5.000m. Paramos para um gole de água e uma barra de chocolate.
Aproveitei para colocar, por cima do Anorak, uma capa de náilon para proteger-me do
vento, que aumentava. Horst consultou o pulso: 130 batidas. Seu limite era 140. O meu era
178 batidas. Silvano perguntou-nos se estávamos bem. Sim, estávamos bem.
Chegamos à caverna
Hans Meyer. Estávamos a 5.151m. Nova parada. Mais água e chocolate. A temperatura caiu
muito. O aclive aumentou. Já caminhávamos com dificuldade. Começávamos a pagar o
preço por sermos os primeiros: pisávamos sobre o cascalho e nosso pé enterrava no
chão. Passamos a andar em ziguezague para diminuir o efeito da subida. Silvano e Abdalah,
que no início conversavam, agora estavam em silêncio. Todos estávamos em silêncio,
concentrados. Havíamos saído fazia uma hora. Para animar, volta e meia Silvano pedia
para que disséssemos sim. E todos gritávamos: - Sim! - Repetíamos. Era animador ouvir
nossas vozes, em alto som, gritando sim.
Uma hora mais tarde
Abdalah caiu. Caiu e ficou deitado. Discutiram em suáile, a língua local. Silvano gritou
que ele não era um bom guia. Tomou a dianteira e mandou que o seguíssemos. Abdalah ficou
para trás, estirado no chão congelado. Eu e Horst nos olhamos. Já não havia mais
ninguém às minhas costas. Aproveitamos para mais uma rápida parada, um gole de água.
Horst estava ofegante. Tirou o pulso: 140 batidas, seu limite. Minha respiração estava
normal. Ao reiniciarmos a caminhada, senti dores nas pernas. Conseqüência da parada.
Meus músculos esfriaram e foram preciso uns 10 passos para que voltassem ao normal.
Até Kibo Horst sempre
teve um ritmo mais forte do que o meu. Agora, a situação estava invertida. Como eu
suportava um esforço cardíaco maior do que ele, não precisava parar tão seguido. Mas
parava, para esperá-lo. E essas paradas, embora de apenas um minuto, me prejudicavam,
pois meus músculos iam esfriando e a retomada estava se tornando cada vez mais dolorosa.
Horst voltou-se e me disse que precisava parar a cada 10 passos. Era o tempo que minhas
pernas precisavam para voltar ao ritmo normal. Além disso, apesar de estar usando uma
bota térmica, quando parava meus pés gelavam. Comecei a ficar preocupado. A notícia boa
foi que Abdalah se recuperou e já nos seguia, um pouco mais a baixo. E descobri que,
enquanto Horst descansava, podia ficar caminhando no mesmo lugar. Com isto, mantinha o
corpo quente.
Nossas forças físicas
estavam se indo. O tempo escorria lentamente e nem ousávamos olhar para cima, buscando a
linha de chegada. A orientação era não pensar na montanha, apenas caminhar. Só restava
ter paciência, seguir em frente. Tinha consciência de que vivia um momento importante,
pois poucas vezes na vida tem-se um único objetivo e a firme certeza de que, a cada
minuto que passa, a cada pé que avança 10cm, se está mais próximo dele. Além do mais,
sabia que não se escalava uma montanha com as pernas, mas com a cabeça. Se não era
recomendável olhar para cima, então que olhássemos para baixo. E lá estavam, com suas
luzes, as cidades de Makutano, no Quênia, e Moshi, na Tanzânia.
Uma hora depois o
terreno mudou completamente. Agora pulávamos de uma pedra para outra. Isto exigia, além
de tudo, força muscular nas pernas, para impulsionar o corpo. Silvano ia na frente,
gritando conosco. Dizia que já havia chegado, que era só alcançar a pedra em que
estava. Quando a alcançávamos, pulava para uma pedra mais acima e repetia a história. A
vontade de que estivesse falando sério era tanta que acreditávamos nele. E quando
chegávamos no ponto em que ele estava, mais uma vez pulava para outra pedra e repetia as
mesmas palavras. E íamos subindo, puxados por esta incrível história.
Com muito esforço,
como vinha fazendo na última horas, alcancei a pedra sobre a qual Silvano tagarelava sua
louca conversa. Quando esperava que pulasse adiante, voltou-se, me abraçou e pronunciou a
frase mais esperada do dia:
- Parabéns, você
está no cume!
Nos abraçamos,
chorando. Eram 5h15min da manhã. Fazia 10 graus abaixo de zero. Os outros ainda estavam
muito abaixo de nós. Por certo não tinham um guia como Silvano. O sol deveria nascer
dentro de 15min. Tentei tomar água. Só tentei, estava congelada no cantil. Sentei-me
sobre uma pedra e esperei o sol nascer. Todo o esforço foi então recompensado. Do cume
do Kilimanjaro, a 2.000m acima do nível das nuvens, por trás da silhueta negra do pico
Mauenzi, o sol começou a surgir, lentamente. Veio em forma de camadas, no horizonte.
Primeiro uma linha vermelha, por cima das nuvens. A seguir uma linha amarelo fogo; acima
uma linha amarela muito clarinha, outra lilás, depois um azul celeste e por fim um céu
limpíssimo. A mais fantástica obra de arte que já vi em toda a minha vida.
Parabéns ao Criador.
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