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Espírito de Vitória

Paulo Hecker Filho

 

(resenha publicada na revista Porto & Vírgula, de 09 de novembro de 1999)

O editor gaúcho Airton Ortiz trocou de papel e virou escritor. No feriado de 2 de novembro autografou "Aventura no Topo da África" (Record), que narra a sua escalada ao Kilimanjaro. Depoimento ágil com gosto de reportagem e confissão pessoal.

Livro legibilíssimo e é justo que, como pinta, seja muito lido. Gostando de viajar - já esteve em mais de cinqüenta países, conta -, o autor decide em 97 escalar o Kilimanjaro, o ponto mais alto da África, com 5895 metros. No que chega em Joanesburgo, é assaltado na rua por um grupo de rapazes, que lhe levam a sacola com dinheiro, documentos, cartão de crédito... Os que passam apenas olham, uns conhecem os rapazes. "Senti medo", diz, mas se ergue, "precisava me recuperar. Nunca se deve entrar em pânico, nos faz perder o controle. E precisamos sempre, seja qual for a adversidade, manter a situação sobre controle." Soa ingênuo, mas também positivo e corajoso. Luta até conseguir novo cartão de crédito e várias peripécias do extenso texto confirmam este espírito de vitória.

Mais que nada, é o que nos leva a atravessar, cúmplices, o livro, que vai sendo composto com uma reportagem sobre a África e alpinismo, recolhendo muitas informações e dados, intercalada pelo diário de viagem, esboçado dia a dia, para logo ser redigido de mistura com as pesquisas na volta. Os dois planos são dosados com experiência jornalística a destacar o suspense.

O diário mostra, apesar da idade madura, um meninão pronto a viver, conversar, fazer amigos e, naturalmente, conseguindo. Nas ilustrações, os dois jovens guias africanos sorriem do fundo para o fotógrafo-autor. Ele lembra que foi recordista estadual nos cem metros rasos, continua em forma e, de fato, acaba subindo fácil ao cume, apesar de todas as possíveis dificuldades que não deixa de enumerar. Uma pequena queda e se desespera, ou lembra assim. "Como pude cair? Como pude cometer tamanha infantilidade? E se rolasse montanha abaixo? Eu, que vinha tão bem. Muito pior que um possível rasgão na luva foi o rasgão na auto-estima. Eu havia caído! Senti-me o último dos últimos. Quase morri de vergonha." E vê que no bastão de esquiar em que se apoiava uma parte tinha entrado dentro da outra. "Viva! Viva! Viva! Não tinha sido uma falha minha, mas sim do equipamento. Não era minha culpa, era do bastão. Minha auto-estima não só voltou, como subiu aos céus."

Ponto com que o leitor se identifica é como sabe defender o seu dinheiro nas cidades pobres, fervilhantes de gente querendo tirar vantagens. Não perde o bom humor, mas não se deixa passar para trás, tal como normalmente se busca agir, mas nem sempre com êxito, daí que o seu nos alegre; no assalto nada podia fazer. O importante é que continua, de ponta a ponta, igual a si mesmo, fiel aos seus, ao Brasil, ao Grêmio. Não faz pose. Nem de escritor.

Ou um pouco, no fim. Os alpinistas e a mídia nos acostumaram com relatos da emoção de atingir um píncaro, que o tornam mais que físico, moral. A vasta bibliografia cria mesmo uma espécie de seita. E, de fato, se a gente se coloca o desafio de meta por raros atingida, ao fazê-lo é aquele religioso sentimento de exceção. No alto do Kilimanjaro, Ortiz se converte à seita, ao ponto de já anunciar a próxima conquista do Aconcágua, o ponto mais alto da América, e mais, de descobrir Deus, o próprio. "Deus acabara de revelar-se, por inteiro, diante dos meus olhos, bem na frente do meu nariz. Criou o cenário, criou o espetáculo e, num ato de infinita bondade, criou também o espectador, que honra sua imagem e semelhança." Nada menos. Entrega rápida, mas entrega. Como resistir? 

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Produção: 360 Graus - Multimídia
Contatos: ortiz@360graus.com.br