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O homem comum que todos somos, com Deus no fim da linha

Paulo Hecker Filho

 

(resenha publicada na revista Porto & Vírgula de 06 de novembro de 2000)

Boa praça, Airton Ortiz, e eficiente, versado. Acaba de publicar seu segundo livro de viagem e alpinismo, "Na estrada do Everest", e é uma reportagem simpática como a do ano passado, "Aventura no topo da África", ambas prenhes de informações e sins à vida. Vejam. Há um ano, ao chegar ao pico do Kilimanjaro, ele dava com Deus, ninguém menos. Agora sobe ao Kala Patar e divisa o do Everest, o mais alto do mundo logo ali, e ainda com uma nuvem. Torna a não fazer por menos: "Foi uma formação fantástica, como se Deus, propositadamente, tivesse coroado o Everest para nos receber." Embora "tão rápida quanto chegou, a nuvem se desfez", deu-lhe tempo de fotografá-la e logo por na capa do livro. Apenas uma nuvem, mas "era incrível como alguém, mesmo medianamente inteligente, não se desse conta de que estávamos diante de uma obra divina. Fiz a minha prece e agradeci a Deus por ter me dado o privilégio de viver o bastante para apreciar sua mais completa obra de arte. Para mim era o suficiente. Se Deus quisesse dar-me algo mais daqui para a frente, seria apenas por excesso de bondade." Eis o homem. Você resiste?

Ortiz é um igual. Sua frase, comedida, esclarece, não se impõe; foi aprender nos livros e vai contando, entre as páginas do seu diário de viagem. Nesta obra, faz um levantamento da história do Nepal, descreve suas cidades, aldeias, povo, transportes, comerciantes, crenças, costumes; resume o hinduísmo; não esquece nenhuma das tentativas de escalar o Everest, até a vitória em 53 de Edmundo Hillary e Tenzing Norgay, nem dos problemas causados pela altitude ou as agências de viagem, os guias, os carregadores, tudo enfim, entre o diário pessoal de cada dia. Garoto, foi vencedor dos cem metros e a saúde não declinou, supera fácil cansaços. Boa gente, gosta de tudo o que é gostável, com a modéstia de o confessar. Valoriza cada equipamento seu ou peça de roupa, conta com fidelidade os diálogos com todo o mundo, por banais que tenham sido, comenta, ainda vibrando, o sabor das comidas, e como passou o dia e a noite. Sem pose, é como é: não se resiste.

O gênero a que a obra pertence, a reportagem, é hoje dos mais cotados entre nós, as de viagens vendendo bem e batendo recordes as sobre o início do país, neste quinhentos anos do descobrimento. De saída, Ortiz se distingue por se por pessoalmente à frente das pesquisas que fez e das novidades que viveu. E por ser quem é, tão simplesmente ele próprio e o homem comum que todos somos, interessa ao maior número de leitores; seu primeiro livro já está em segunda edição e este não irá menos longe. O leitor fica a par de mil coisas curiosas num estilo jornalístico do bom, sem pretensão, sucinto, ágil, harmonioso.

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Produção: 360 Graus - Multimídia
Contatos: ortiz@360graus.com.br