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Na Rota Maia -
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Copán

Moderna cidade de Copán Foto: Airton Ortiz

Estela retratando o rei 18 Coelhos e um morador atual Foto: Airton Ortiz
| Viajei de Tegucigalpa para Copán, na fronteira entre Honduras e a Guatemala, de ônibus de linha, quase um dia sacolejando por entre vales, montanhas e selvas. A pequena aldeia onde se reuniam os plantadores de fumo do vale do rio Copán se transformou em vila e com as descobertas arqueológicas das ruínas maias a pouco mais de um quilômetro de distância logo seus moradores se viram em meio a uma pequena cidade repleta de turistas chegando e saindo.
Especialmente apreciada pelos jovens, rapazes e moças acostumados a cruzar o mundo arcados sob suas pesadas mochilas, Copán se transformou numa das mais movimentadas encruzilhadas da América Central, onde se pode encontrar, num mesmo albergue, viajantes falando inglês, espanhol, holandês, alemão, hebraico, francês, japonês, coreano e até português, embora esses em bem menor número.
Como convém a uma pequena cidade com estreitas calçadas e ruas pavimentadas com pedras redondas, onde apressados tuk-tuks circulam aos solavancos, ela se concentra em torno da praça central, tendo de um lado a igreja e do outro a prefeitura. Suas casas são baixas e sua arquitetura colonial nos remete às figuras dos livros de história da época da chegada dos colonizadores europeus ao istmo centro-americano.
Na orla entre as montanhas e o fundo do vale, além dos pátios arborizados para qualquer lado que se olhe vemos um horizonte coberto de ocote, um pinheiro nativo, misturado a enormes árvores, a verdejante vegetação de uma terra abençoada com chuvas constantes. Relativamente plana, poucas das ruas sobem a encosta do vale. Adicionado a sua elevada altitude, proporcionando um ar fresco constante, a cidade em si já é um convite a uma boa caminhada.
Uma atividade altamente simpática aos mais atrevidos é hospedar-se alguns dias numa pequena chácara para uma convivência mais próxima com os campesinos. As famílias locais acolhem com satisfação os visitantes, fonte de renda extra ao plantio de fumo. Ao final, todos saem felizes do pequeno vale banhado pelo rio Copán.
À noite, tanto os turistas que chegam apenas para conhecer as ruínas quanto os viajantes menos apressados se reúnem nos inúmeros bares e restaurantes para uma cerveja e um bate-papo sobre a principal atração do vale, o real motivo de cada um estar neste canto do mundo.
Sítio Arqueológico de Copán
Copán se tornou mundialmente conhecida através de um livro publicado pelo aventureiro e escritor norte-americano John Lloyd Stephens e o arquiteto e desenhista inglês Frederich Catherwood. Mais tarde, eles compraram a área de um agricultor por 50 dólares.
John Lloyd Stephens já havia publicado seu famoso livro de viagens Incidents of travel in Arábia Pétrea quando convenceu o presidente dos Estados Unidos, Martin Van Buren, a enviá-lo em missão diplomática à América Central. Acompanhado por Frederich Catherwood, ele visitou as ruínas em 1839, onde passaram diversas semanas fazendo escavações. Desenterraram monumentos, descobriram templos, fizeram medições e tomaram muitas anotações.
Após visitarem outras áreas, eles voltaram aos Estados Unidos e publicaram mais um livro, Incidents of travel in Central Amercia, Chiapas and Yucatán. Como era de se esperar, o livro fez um grande sucesso, vendendo dez edições em três meses. O brilhante texto de Stephens, descrevendo em detalhes as impressionantes ruínas, acompanhado pelos desenhos magníficos de Catherwood, captou a imaginação popular e o mundo maia ressurgiu do fundo das florestas tropicais.
Atenas do Novo Mundo
A partir do grande sucesso do livro, arqueólogos do mundo inteiro se voltaram para Honduras, e as ruínas maias de Copán foram aos poucos sendo resgatadas da selva para ilustrar a história da mais importante civilização pré-colombiana nas Américas. Em 1959, os arqueólogos Heinrich Berlin e Tatiana Proskouriakoff começaram a decifrar a escrita maia, trabalho que continua até hoje. Em 1975, iniciaram-se escavações de túneis, técnica utilizada para encontrar os prédios soterrados pelos novos reis, que assim o faziam para construir seus próprios templos mais altos que os anteriores.
Segundo o famoso arqueólogo Sylvanus Morley, a antiga cidade maia de Copán pode ser considerada a “Atenas do Novo Mundo”. Embora não fosse a maior da época, apesar de ter congregado 24 mil habitantes em seu auge, Copán foi a capital cultural maia durante os 400 anos em que dominou a região. Principal centro de escultura dessa grande civilização, destacou-se também pela sua desenvolvida astronomia e complexos escritos hieroglíficos.
O fértil solo do fundo do vale dominado pelo rio Copán já atraia agricultores há mais de dois mil anos, embora os maias tenham chegado na região na mesma época em que Jesus Cristo circulava pela Palestina. Evidências arqueológicas sugerem que os primeiros prédios, ainda muito rudimentares, foram construídos por volta no final do primeiro século da nossa era. Em 426, tem início a dinastia maia que governou Copán por quatro séculos.
Os reis maias de Copán
Apenas em 1989, foram encontradas referências sobre os primeiros reis de Copán numa câmera chamada Sala dos Fundadores, enterrada bem abaixo da hoje famosa Escadaria dos Hieróglifos. Aparentemente a sala foi mandada construir por Mat Head, o segundo rei da cidade-estado, para homenagear seu pai, o rei Yax K’uk’Mo’. De acordo com uma Estela encontrada em seu interior Yax K’uk’Mo’ governou Copán de 426 a 435. Em 1923, sua tumba foi encontrada, dando a entender aos arqueólogos que o primeiro rei de Copán não foi um guerreiro, mas um poderoso xamã, mais tarde idolatrado por seus sucessores como uma divindade.
Sobre os próximos sete reis pouco se sabe, nada mais do que alguns nomes e certas datas. Mas aos poucos a cidade foi crescendo em importância, especialmente devido ao seu comércio com outras cidades maias da Guatemala, tribos não-maias do sul e do leste e mesmo algumas civilizações tão distantes como o grande império Teotihuacán, ao norte.
Em 553, com a ascensão ao trono de Moon Jaguar, o décimo rei da dinastia iniciada pelo poderoso xamã Yax K’uk’Mo’, começou o período das grandes construções. Ele mandou erguer o Templo Rosalila, uma admirável obra arquitetônica descoberta em 1989 enterrada sob as estruturas de um outro templo, mandado construir por um rei que sucedeu Moon Jaguar anos mais tarde.
Após Moon Jaguar, uma série de reis longevos governou Copán, dando à cidade a estabilidade que a levou ao seu esplendor. Numa época em que tanto as cidades-estados dos maias quanto os outros povos viviam em constante guerra, destruindo-se uns aos outros, a comunidade do vale Copán se manteve unida trabalhando pela grandiosidade do seu reino. Essa política favoreceu o seu fortalecimento, capaz de repelir todos os ataques inimigos a que fora submetida.
Fumaça Imix, o 12º rei, assumiu o trono em 628 e governou por 68 anos, mandando construir mais monumentos do que qualquer outro rei. O rei 18 Coelho também foi um grande construtor, dando a forma atual a Grande Plaza e ao estádio de futebol. Ele encorajou o desenvolvimento das esculturas, desde os baixo-relevos da época até os novos estilos que surgiam e que acabaram gerando as peças mais nobres que chegaram aos nossos dias.
Apesar de toda essa ênfase dada às artes e de seu curioso nome, o rei não teve a merecida sorte, seu reinado terminando numa grande tragédia pessoal. Ele foi capturado numa batalha contra a cidade vizinha de Quiriguá, um antigo Estado vassalo de Copán, e decapitado em 738.
Devido ao inglório final do rei 18 Coelho, seu sucessor, Fumaça Macaco, não ergueu nenhuma Estela em sua honra e mandou construir apenas um templo em seus 11 anos de poder. Ele aparentemente dividiu seu governo com um conselho formado por nobres, levando o regime para um caminho totalmente novo no mundo da época, onde os reis tinham poder absoluto sobre tudo e todos no reino.
Seu sucessor, Fumaça Caracol, numa tentativa de levar sua dinastia ao tempo das grandes glórias, mandou construir a impressionante Escadaria dos Hieróglifos, a mais longa inscrição hieroglífica conhecida nas Américas, 2.500 grifos narrando o glorioso passado de Copán. Esse complexo sistema de hieróglifos, descrevendo tanto a vida comum como os atos de bravura dos nobres, só podia ser lido pela elite educada do reino, mas era motivo de grande admiração pelos embasbacados camponeses.
Abandono de Copán
Yax Pac, o último líder a completar seu reinado, governou a cidade por 58 anos e tentou legitimar seu governo através da veneração do culto ao deus Jaguar Tlaloc, baseado no sacrifício de animais e seres humanos. Um dos mais importantes monumentos mandados construir por ele foi o agora famoso Altar Q, um quadrado de pedra em cujas laterais estão esculpidos os 15 reis que o sucederam no trono de Copán. Embora o ambicioso rei não tivesse tido tal intenção na época, ele acabou passando para a nossa civilização um resumo da história dos maias em Copán.
Seu sucessor, o 17º rei de Copán, foi U Cit Tok’. Ele assumiu o trono em 822, mas, por alguma razão ainda desconhecida dos historiadores, não concluiu seu governo. O Altar L, mandado construir para comemorar seu reinado, ficou pela metade, sugerindo que a dinastia fundada pelo xamã Yax K’uk’Mo’foi abruptamente extinta e a cidade abandonada.
Mesmo sem um Estado organizado, o vale ainda se manteve densamente povoado pelo menos até o ano 1.200. A partir dessa época, os moradores da região foram diminuindo até se resumirem às pequenas aldeias encontradas pelos espanhóis quando chegaram na região, em 1524.
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