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Cenário do filme Guerra nas estrelas visto do topo do templo IV
Foto: Airton Ortiz


Templo do Grande Jaguar, mausoléu do rei Ah Cacau
Foto: Amigos da Bike


Atual moradora de Flores
Foto: Airton Ortiz

Na Rota Maia - 02
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Flores

Saí de Copán, em Honduras, com o clarear do dia para aproveitar o frescor do início da manhã, hora em que o sol dava uma coloração especial às colinas cobertas de árvores. Eu estava a apenas 12 km da fronteira com a Guatemala, uma caminhada de três horas por uma bela estradinha sobre as montanhas com uma maravilhosa vista dos vales maias lá embaixo, novamente cobertos por plantações de milho e café. A mochila pesava mais do que o necessário, mas a pequena barraca, o minúsculo fogareiro e um pouco de comida desidratada me davam garantias de um pernoite tranqüilo caso me perdesse em meio ao sobe e desce do acidentado terreno hondurenho.

Carimbei meu passaporte no posto da fronteira, troquei 100 dólares americanos por 750 quetzales e caminhei mais 1,2 km até a pequena vila El Florido, o primeiro povoado em território guatemalteco, onde embarquei num colorido ônibus com destino ao norte do país. Passei pelas ruínas maias de Quiriguá, os antigos inimigos de Copán, responsáveis pela degola do rei Dezoito Coelhos, e três dias depois, através de muitos ônibus e algumas caronas, cheguei na cidadezinha de Flores, no extremo norte da Guatemala.

Tikal

Viajei até Flores para organizar minha solitária expedição a Tikal, mais 63 km ao norte, já quase na fronteira com o México, no fundão das selvas de El Petén. Consegui transporte até a entrada do sítio arqueológico, onde deixei minha barraca já armada, caso necessitasse pernoitar no local, e me enfiei por entre suas ruínas, cerca de 4 mil edificações distribuídas em meio a floresta tropical repleta de macacos, papagaios, tucanos e demais animais típicos desse ambiente, todos em completa algazarra. Fundada no ano 700 a.C. a 548 quilômetros ao norte da Cidade da Guatemala, Tikal é a mais antiga capital dessa impressionante cultura.

Guerra nas estrelas

Ao contrário de Copán, que me fascinou com suas elaboradas esculturas, Tikal se destaca devido à altura dos seus templos. Seu fascínio é tamanho que em 1977, George Lucas usou o local como cenário do filme Guerra nas estrelas. Quem viu a série lembra que as naves da Rebelião, pilotadas por Luke Skywalker e o capitão Han Solo, ao voltarem para sua base após terem destruído a Estrela da Morte, sobrevoam uma floresta compacta onde se sobressaem os picos de algumas pirâmides.

Além disso, por estarem esparramados em uma ampla área em meio à selva, estimei ter caminhado mais de dez km para visitar todos os seus edifícios. É possível percorrer o complexo arqueológico em um único dia, desde que se esteja disposto a caminhar de sol-a-sol, além de subir centenas de degraus para saborear as vistas deslumbrantes desde o topo dos seus mais altos prédios. Como muitas das escadarias são escorregadias, algumas cobertas por musgos, a possibilidade de resvalar e despencar pirâmide abaixo faz do cansaço um ingrediente a mais na adrenalina do lugar.

Rei Yax Moch Xoc

Após caminhar cerca de 1,5 km por entre a floresta desde a entrada do sitio arqueológico, sempre em meio a árvores centenárias, finalmente cheguei à Gran Plaza, um estupendo conjunto de prédios limitados por dois altíssimos templos gêmeos, uma tradição arquitetônica da época Clássica Maia. O rei Yax Moch Xoc, que governou em torno do ano 230, é considerado o fundador da dinastia que reinou em Tikal por séculos. Durante o comando do rei Garra de Jaguar, no século IV, Tikal adotou a nova e brutal tática bélica utilizada pelos governantes de Teotihuacán, que viviam na região central do atual México. Em vez de travar uma luta corpo-a-corpo com seus adversários no campo de batalha, o exército de Tikal empregou tropas auxiliares, que cercavam o inimigo e dizimavam suas fileiras arremessando suas lanças à distância, desde um local seguro. Essa variante no combate transformou Tikal no reino dominante de toda a região.

Rei Ah Cacau

No século VI, o rei maia Senhor Água subiu ao trono na cidade-estado de Caracol, no oeste da atual Belize, e se lançou em guerra contra Tikal, decapitando o rei tikalense. Em 682, no entanto, o poderoso monarca Ah Cacau, 26º rei da dinastia fundada por Yax Moch Xoc, restaurou o antigo poder militar de Tikal, restabelecendo sua primazia sobre o mundo maia. Em 695, conquistou a grande cidade rival de Calakmul, no atual México, e seus sucessores se encarregaram da construção da maioria dos templos que flanqueiam a Gran Plaza. No auge de Tikal, por volta do ano 800, ela cobria uma área de 30 km² e chegou a ter uma população estimada em 100 mil habitantes. Mais de 12 templos levantados sobre uma vasta plataforma enobreciam a capital, muitos dos quais mandados construir pelo grande rei Ah Cacau.

Templo Grande Jaguar

O templo do Grande Jaguar, construído pelo filho de Ah Cacau, serviu-lhe de mausoléu. Entre as riquezas sepultadas com o poderoso soberano foram encontrados objetos de jade, pérolas, ossos gravados com hieróglifos e dezenas de espinhas utilizadas nos rituais de sangrias. Na parte superior do templo há um pequeno recinto com três salas cobertas por um penacho anteriormente adornado com relevos e pinturas de cores brilhantes.

A outra pirâmide, em frente ao templo do Grande Jaguar, conhecida por templo II, mede 38 metros de altura, onde subi para melhor apreciar e fotografar a extraordinária tumba do rei Ah Cacau, atualmente um dos símbolos arquitetônicos mais impressionantes da Antigüidade.

Para me deslocar entre um prédio e outro era preciso atravessar a densa floresta. Às vezes eu caminhava sobre o que restara das antigas calçadas feitas para ligar os templos, importante para as cerimônias religiosas e para as práticas astronômicas dos sacerdotes. Outras vezes, era selva pura. O penetrante aroma da terra úmida e da sua vegetação, a tranqüilidade do ambiente e o som emitido pelos animais dão a Tikal uma característica que eu ainda não havia encontrado em outras selvas pelo mundo afora.

Bairros

Na Acrópole Norte os arqueólogos já desenterraram mais de 100 estruturas diferentes, as mais velhas nos remetendo ao século V a.C. A sudeste da Gran Plaza está a Acrópole Central, um emaranhado de pátios, pequenas salas e diminutos templos, palácios onde viviam os nobres. Um pouco mais adiante se encontra a Plaza Oeste, marcada pelo templo III, com 55 metros de altura. Parte dessa pirâmide ainda está soterrada, dando-nos uma idéia de como a cidade foi encontrada pelos primeiros exploradores.

Ao sul da Gran Plaza está a Acrópole Sul com seus palácios milenares e seu magnífico templo V, com 58 metros de altura. A oeste da Acrópole Sul está a Plaza dos Sete Templos, com seus pequenos prédios e um campo de futebol. A sudoeste da Gran Plaza se encontra o Mundo Perdido, um vasto conjunto com 38 estruturas com uma enorme pirâmide ao centro. Com 32 metros de altura e uma base com 80 metros, ela está construída sobre outras três menores, a mais velha datando do ano 700 a.C., fazendo dela o prédio mais antigo de Tikal e um dos mais velhos do mundo maia.

Templo IV

Finalmente cheguei ao templo IV, no extremo oposto à entrada da cidade. Com 64 metros, trata-se do mais alto de Tikal e o segundo de toda a América pré-colombiana. Ele foi construído em 711 para comemorar o 14º katun do baktun 9 (um katun equivale a 20 anos e um baktun a 400 anos no calendário maia).

Em frente ao edifício existe uma Estela com a efígie do seu construtor, o rei Ah Cacau, uma das mais bem preservadas de Titak. Levei quase uma hora para escalar a pequena colina e chegar ao topo da pirâmide, mas a vista foi maravilhosa, todas as cúpulas dos altíssimos templos de Tikal vistas por sobre as copas da grande floresta, exatamente como mostrado no filme Guerra nas estrelas.

Colapso

O poderio de Tikal entrou em decadência por volta do ano 900, quando foi abandonada e seus prédios engolidos pela selva. Desde o seu abandono, quase mil anos se passaram até que os arqueólogos começassem a desenterrá-la, trabalho que está apenas em seu início.

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Produção: 360 Graus - Multimídia
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