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Mais alto templo de Lamanai, com 33 metros
Foto: Airton Ortiz


Crocodilo do New River, em Lamanai
Foto: Airton Ortiz


Airton Ortiz na fronteira entre a Guatemala e Belize
Foto: Airton Ortiz


Selva vista do topo do mais alto templo de Lamanai
Foto: Airton Ortiz

Na Rota Maia - 03
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Lamanai

Meu pequeno ônibus em direção à Belize deveria passar às seis da manhã. Eu embarcaria em Flores, onde ele faria uma parada adicional. Para evitar surpresas ainda maiores, às cinco horas estava a postos. As sete ele chegou.

Tínhamos 100 km até a fronteira, mas nossos problemas começaram bem antes. O asfalto acabou e passamos a andar por uma estradinha de chão, toda esburacada, às vezes na borda de altos precipícios.

Acidente

Logo encontramos um velho caminhão tombado. O motorista perdeu o controle, a carreta soltou-se do cavalo e ficou atravessada na estrada, impedindo a nossa passagem. Era um carro tanque e o óleo começou a escorrer pela terra, entrando numa valeta e seguindo em direção a um riacho um pouco mais abaixo.

Apareceu uma retro-escavadera. Sem a menor cerimônia, a máquina abriu uma clareira por entre as árvores, no barranco ao lado da estrada, liberando um caminho por onde conseguimos passar.

Perigo de assalto

Alguns viajantes tinham me alertado para tomar cuidado na estrada entre Flores e a fronteira com Belize, pois estavam ocorrendo muitos assaltos na região, especialmente com vítimas estrangeiras. Trata-se de uma área despovoada, o limite entre os dois países é uma linha imaginária em meio à selva, por onde muitos centro-americanos seguem para o México e de lá para os Estados Unidos, ilegalmente.

Caracol

Perto do meio-dia chegamos em Melchor de Mencos, onde carimbei meu passaporte e entrei caminhando em Belize, a única ex-colônia britânica na América Central. Tomei outro ônibus e seguimos pela Western Highway, passando ao norte das ruínas de Caracol, a grande cidade que chegou a conquistar Tikal.

Na época do rei Senhor Água, quando todo o El Petén estava sob seu poder, Caracol atingiu 150 mil habitantes, quase 20 vezes mais gente do que os atuais moradores de Belmopan, a atual capital de Belize.

Belize

No meio da tarde desembarquei na Cidade de Belize. Embora com apenas 60 mil moradores, trata-se do maior centro urbano do país, cuja população total não passa dos 270 mil habitantes.

Eu já estava na estrada há um bom tempo, por isso aproveitei alguns dias nas praias do Caribe antes de voltar para a selva.

Orange Walk

Continuei pela Northern Highway em direção à Orange Walk. Pouco mais de duas horas após a partida do ônibus passamos sobre a ponte do New River, onde desembarquei. Haviam me informado que seria possível alugar um barco junto aos pescadores na localidade de Tower Hill e seguir para Lamanai. Mas era domingo e ninguém se mostrou interessado no trabalho.

Voltei para a estrada e fiquei tentando uma carona para Orange Walk. Já era quase meio-dia e o sol estava terrível. Por sorte, não esperei muito. Ataquei um velho auto e ele parou poucos metros adiante. Corri e antes que eu falasse alguma coisa o motorista mandou-me entrar no banco de trás. Pouco depois o simpático homem me deixou na praça central, e sai em busca de hospedagem.

Cuello

Instalado numa pequena pensão na Queen Victoria Ave, na verdade a estradinha que dividia ao meio a pequena cidade, sai para caminhar. Meu interesse era visitar um local chamado Cuello, quatro quilômetros a oeste, onde havia algumas estruturas maias. Nada significante em termos arquitetônicos, mas seus vestígios estavam datados de mil anos antes de Cristo, o que fazia do local o mais antigo assentamento do Mundo Maia até agora descoberto.

As ruínas ficavam nas terras de uma destilaria de álcool, sendo necessário uma licença para entrar na propriedade. Estava fechada, não encontrei viva alma nas redondezas do prédio, me decidindo a seguir em frente sem a tal autorização. Cruzei um canavial e sai no local desejado apenas para constatar que pouco havia para ver além de algumas pedras no chão e uma pequena pirâmide. Mas valeu pela curiosa sensação de estar pisando num dos lugares mais antigos da história humana.

Calendário maia

Segundo os astrônomos maias, a presente era começou no ano 3114 a.C., devendo estender-se até 2012. Assim, pelo calendário maia, estamos a poucos anos do fim do mundo, que deverá sucumbir vítima de terremotos e erupções vulcânicas.

Sabemos que por volta de 1800 a.C. uma espécie rústica de cerâmica foi introduzida, ou inventada, na cultura maia. Em Cuello, a cerâmica feita há três mil anos já era bem elaborada, uma arte que mais tarde se tornou importante para reconstituirmos as características do antigo mundo centro-americano.

Subindo o rio

Na segunda-feira bem cedinho saí a procura de transporte para Lamanai. Antonio Novelo, um simpático morador local providenciou uma lancha com um motor de popa de 15 hp, comprou mantimentos, água e, claro, repelentes contra mosquitos, e lá fomos nós, rio acima, ansiosos por um pouco de adrenalina.

Ele conhecia bem a região e foi mostrando a flora e os animais que encontrávamos pelo caminho, especialmente aves e os grandes crocodilos, em abundância tomando sol nas margens do rio. Quando víamos um deles manobrávamos a lancha em sua direção e desligávamos o motor, uma artimanha para chegarmos perto sem sermos notados. Ou, pelo menos, sem espantar os ariscos animais. Mas, como para fazer jus ao nome do lugar, eles quase sempre submergiam e sumiam sob o casco do nosso frágil barquinho de alumínio.

Logo encontramos um bando de morcegos dormindo no oco de uma grande árvore e esquecemos os crocodilos. Um pequeno pássaro assustou-se com o barulho do motor e saiu voando na nossa frente. O bichinho não atinava em voltar para o mato, tentando apenas fugir sobrevoando o rio. Por tratar-se de um estreito canal de água em meio à selva fechada, ele voou um bom tempo diante da lancha, para nosso deleito.

Lamanai

O sítio arqueológico de Lamanai, cujo nome original era Crocodilo Submerso, está junto à lagoa New River, na cabeceira do rio, em meio a uma densa floresta tropical. Embora grande parte dos seus templos continue submersa na selva, percorrê-los é uma bela aventura. Uma das mais isoladas ─ e por isso menos visitadas ─ cidades maias, para conhecê-la é preciso um pouco de desprendimento e muita paciência.

Povoada desde épocas imemoriais, seus prédios mais antigos datam do século VIII a.C. A cidade floresceu no período Pré-Clássico Tardio (entre os anos 300 a.C. a 250 d.C.), tornando-se um grande centro cerimonial muito antes dos demais assentamentos maias na região. Os templos estão espalhados em meio aos macacos e muitas aves, como o tucano, símbolo de Belize. As gigantescas árvores estão cobertas com parasitas, como as belíssimas orquídeas negras, a flor nacional.

Templo da Máscara

Caminhando envolto por satânicos enxames de gigantescos mosquitos, chegamos ao Templo da Máscara, construído em 200 a.C., e modificado ao longo dos séculos, suas últimas estruturas datando de 1300, uma demonstração da longevidade do isolado reino. Mesmo assim, todas as alterações seguiram as tendências da arquitetura maia, uma demonstração do apego que tinham à sua cultura.

Uma das suas laterais está decorada com a máscara da cabeça de um homem. Com quatro metros de altura, a escultura mostra a face do rei saindo da boca de um crocodilo. No subsolo foi encontrada a tumba de um homem adornado com conchas marinhas e jóias esculpidas em jade. Ao lado, havia uma segunda tumba, onde estava enterrada uma mulher, provavelmente a rainha.

Centro cerimonial

O mais alto templo de Lamanai tem 33 metros de altura, seu penacho sobressaindo-se sobre as copas das árvores. Ele foi construído no local onde anteriormente havia uma grande área residencial povoada por trabalhadores urbanos, por volta do ano 100 a.C., fazendo dele um dos mais antigos centros cerimoniais do Mundo Maia.

Sacrifícios

À leste do estádio de futebol, uma Estela estampa a efígie do rei Fumaça Caracol, construída para celebrar o final de um tun (ano maia), bem como o aniversário do reinado do grande monarca da cidade do Crocodilo Submerso. Em sua base, estão enterradas cinco crianças, cujas idades variam entre recém-nascido e oito anos.

Acredita-se que se trate de uma cerimônia extremamente significativa, pois raramente aconteciam sacrifícios humanos como oferendas aos monumentos. Esses, quando se davam, eram dedicados aos deuses, especialmente Chac, a divindade da chuva, de grande importância para os agricultores, os trabalhadores que sustentavam as extravagâncias dos reis e sacerdotes.

Colapso

Ao contrário das demais cidades, os maias ainda viviam em Lamanai quando os espanhóis chegaram em Belize, no século XVI. As ruínas de duas igrejas atestam que os padres europeus tentaram catequizá-los, o que conseguiram apenas em parte. Quando os freis partiram, a população voltou a adorar seus deuses tradicionais. Pouco mais tarde a cidade foi abandonada e a selva tomou conta do lugar. O sítio arqueológico começou a ser escavado apenas em 1970, muito ainda tendo por ser feito.

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Produção: 360 Graus - Multimídia
Contatos: ortiz@360graus.com.br