
Tulum, no Caribe, o porto marítimo dos maias Foto: Airton Ortiz

Pirâmide de Kukulcán, em Chichén Itzá Foto: Airton Ortiz

Mausoléu do rei Pakal, em Palenque, na selva de Chiapas Foto: Airton Ortiz
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Na Rota Maia - 04
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Em Orange Walk peguei uma carona num caminhão carregado de cana-de-açúcar e segui para o norte, até a cidade fronteiriça de Chetumal, na península do Yucatán, por onde entrei no México. No dia seguinte segui viagem, mais 250 km até Tulum, na costa do Caribe.
Tulum
Cercada por muros em três lados e protegida pelo mar do Caribe, Tulum floresceu no período pós-clássico tardio (entre os anos 1200 e 1500). Seus habitantes estavam divididos em três classes sociais: a classe alta, que se dedicava às atividades relacionadas com o governo, a religião, a guerra e o comércio; a classe média, formada pelos burocratas e artesãos, e a classe
baixa, composta pelos pescadores, caçadores e agricultores, especialmente os plantadores de milho, feijão e mandioca.
As classes alta e média viviam dentro da cidade murada, embora em construções diferentes, pois existiam palácios luxuosos e casas simples. A classe baixa, a mais numerosa, vivia no lado de fora dos muros. Como se tratava de um importante centro religiosos, havia diversas entradas na cidade para a população poder adorar livremente o deus Descendente, a divindade local,
especialmente nas festividades em que as grandes oferendas eram feitas para que tivessem chuvas e boas colheitas.
Comércio
Tulum serviu como importante centro de distribuição de produtos agrícolas. Além da guerra e da agricultura, o comércio foi uma das atividades mais importantes desse povo. Eles chegaram a criar uma complexa rota comercial ligando não apenas as cidades maias como também outras povoações, tanto no oeste e norte do México como em lugares mais ao sul, tão longes quanto a
Costa Rica, o Panamá e mesmo a Colômbia.
Os ricos mercadores utilizavam escravos para transportar as mercadorias por terra ou em canoas que chegavam a ter 16 metros de comprimento. Singrando os rios e mesmo o mar, eles vendiam mel, tabaco, conchas marinhas, sal, peixe seco e pérolas além de penas de pássaros e peles de jaguar, importantes para a confecção das vestimentas da realeza maia.
Além do escambo, nos mercados também aconteciam compras e vendas, operações que utilizavam grãos de cacau como moeda corrente. Essa planta era tão importante para eles que alguns monarcas a usavam como título de nobreza, como o rei Ah Cacau, de Tikal.
Chichén Itzá
Após visitar Tulum viajei para o noroeste e me estabeleci em Valladolid, uma pequena cidade colonial nas proximidades do sítio arqueológico de Chichén Itzá, meu próximo destino na Rota Maia. Suas primeiras construções surgiram no início do período clássico tardio, pouco depois do ano 800, devido às suas características puramente maias. Menos de um século depois a
cidade foi abandonada. Por volta do ano 1000 os maias voltaram para sua grande capital, porém governaram sozinhos por pouco tempo.
Os toltecas, povo guerreiro que vivia ao norte da atual Cidade do México, invadiram Chichén Itzá, conquistando-a. Mesmo assim, devido à superioridade cultural maia, os novos senhores não conseguiram impor suas tradições completamente. As duas culturas se mesclaram, especialmente em seus aspectos arquitetônicos e religiosos.
Chac-Mool, o deus maia da chuva, passou a conviver lado-a-lado com Quetzalcóatl, a serpente emplumada dos toltecas. Rodeada pela vegetação tropical suas pirâmides, templos, colunatas, plataformas, palácios e monumentos mostram a extraordinária capacidade dos arquitetos pré-colombianos em construírem obras extraordinárias. No seu auge, entre os anos de 1.100 e 1.350, Chichén
Itzá chegou a ter 80 mil habitantes em sua zona urbana.
Pirâmide de Kukulcán
A fusão das tradições arquitetônicas do planalto central mexicano e maias fez de Chichén Itzá uma cidade única entre as metrópoles da península do Yucatán, como demonstra a fabuloso pirâmide de Kukulcán, atualmente o mais conhecido símbolo do Mundo Maia. Com 25 metros de altura, suas quatro escadarias laterais, com 91 degraus, mais o degrau da plataforma superior,
totalizam 365 ─ o número de dias do ano; um grande calendário esculpido em pedra.
Durante os equinócios de primavera e outono, luzes e sombras naturais formam uma série de triângulos na lateral da escadaria do lado norte da pirâmide, criando a imagem de uma serpente. A figura é completa com uma cabeça de serpente esculpida na base da escada. Sua imagem sobe em março e desce em setembro.
Munido de uma licença especial, pude visitar o interior da Kukulcán, por dentro da antiga pirâmide maia. Uma porta baixa e um estreito e longo túnel dão acesso a uma tumba, onde há um trono em forma de jaguar vermelho com olhos de jade e uma figura de Chac-mool.
Observatório astronômico
Trata-se de um dos mais fascinantes prédios construídos pelos maias. As aberturas em seu domo se alinham com algumas estrelas em certas datas específicas, possibilitando aos sacerdotes determinar as ocasiões em que deveriam ser realizados os rituais sagrados, as celebrações religiosas, as plantações e as colheitas.
Estádio de futeboll
O estádio, o maior do Mundo Maia, tem 135 metros de comprimento, com templos em suas cabeceiras e as laterais cercadas por altas paredes, onde estão encravados anéis de pedra, por dentro dos quais a bola deveria passar. Em seus muros estão gravadas cenas de decapitação, pois o objetivo do jogo era religioso.
A maioria dos textos que eu li sobre essas oferendas atesta que o capitão do time perdedor era decapitado, mas os guias profissionais em Chichén Itzá contam que era o vencedor o sacrificado. Seu sangue servia para irrigar a terra, uma oferenda sagrada ao deus Chac-Mool e, portanto, uma atitude santificadora. O principal pedido à divindade era chuva abundante, pois devido ao
tamanho da cidade eles precisavam produzir cada vez mais alimentos numa terra beirando ao esgotamento produtivo.
Sacrifícios Humanos
Os toltecas levaram sua obsessão pelos sacrifícios humanos a um nível nunca visto antes na cultura maia, onde tanto líderes inimigos como seus próprios heróis eram decapitados em oferenda aos deuses, rituais onde o sangue jorrava para irrigar a terra em busca de fertilidade para as novas colheitas.
Devido à santidade adquirida pelo lugar, os reis mais resolveram transferir sua capital política para Mayapán, a oeste, transformando Chichén Itzá em uma capital religiosa. Inexplicavelmente, isso a levou ao declínio, sendo abandonada no século XIV. Poucas décadas mais tarde, a selva havia tomado conta do lugar.
Chiapas
Peguei um ônibus em Valladolid no meio da tarde e viajei para Mérida, capital do estado do Yukatán, aonde cheguei no começo da noite. Tive tempo apenas para jantar e embarquei em outro coletivo com destino a Palenque, aonde cheguei na manhã seguinte, uma noite inteirinha na estrada.
Enquanto dormia atravessei o estado mexicano de Campeche e ingressei em Chiapas, na costa do Pacífico, no extremo sul do México, a região mais pobre do país, coberta de selvas e populações indígenas em constante conflito. Há poucos anos, liderados pelo comandante Marcos, eles se uniram sob o Exército Zapatista de Libertação Nacional e iniciaram um movimento guerrilheiro
que até hoje se faz presente na região.
Palenque
Seus primeiros habitantes começaram a construí-la por volta do ano 100 a.C. e seu auge se deu entre 630 d.C. e 740. Seu maior soberano, rei Pakal, governou entre 615 e 683. Ele mandou construir muitos templos e palácios, inclusive o Templo das Inscrições, seu mausoléu, o mais célebre monumento fúnebre das Américas em todos os tempos. Em oito níveis, sua escadaria frontal
com 25 metros de altura leva ao topo, onde existe uma série de pequenas salas.
Ainda no alto há uma estreita escadaria interna recoberta com oferendas de cerâmica, jade e conchas conduzindo para o fundo da pirâmide, onde está a tumba de Pakal. Painéis em baixo relevo mostram o renascimento do rei como o deus Milho, além de diversos hieróglifos narrando as histórias do seu reinado. Nas paredes, figuras em estuco representam os nove senhores do
submundo, as divindades do além-túmulo.
Como a cripta é maior do que a entrada da tumba, conclui-se que fora construída antes de se iniciarem as obras da pirâmide. O corpo de Pakal descansa em um sarcófago de pedra com silhueta humana e foi fechado com uma lápide de 3,8 metros por 2,2 metros. Uma vez completados os rituais fúnebres, foram colocados cinco sacrifícios humanos em um pequeno recinto em frente da
porta.
Pouco depois do ano 900 a majestosa cidade foi abandonada. Localizada em uma região tropical com grande precipitação pluviométrica, em poucos anos acabou totalmente coberta pela selva. Passaram-se outros 900 anos para que ela fosse redescoberta e se iniciassem os trabalhos arqueológicos para trazer seus tesouros ao conhecimento do mundo moderno.
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