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San Cristóbal de las Casas, no sul do México
Foto: Airton Ortiz


Os outrora poderosos maias sobrevivem miseravelmente nas ruas de San Cristóbal de las Casas
Foto: Airton Ortiz


Cozinha tradicional maia numa região autônoma zapatista
Foto: Airton Ortiz


Na Rota Maia - 05
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San Cristóbal de Las Casas

Após alguns dias em Palenque continuei minha viagem para o sul até San Cristóbal de las Casas, o maior centro urbano maia em território mexicano, no coração de Chiapas, fronteira com a Guatemala. Na cidade, um em cada quatro habitantes é descendente dos antigos maias, sendo que nas pequenas aldeias do interior seus moradores são todos maias, longe da influência dos que se mesclaram com os espanhóis, formando a elite mestiça abastada que governa o estado.

No caminho passei por muitos vilarejos indígenas esparramados pelas montanhas cobertas pela selva Lacandona. Nos arredores de Ocosingo, a pequena vila onde fiquei dois dias, alguns povoados são considerados territórios autônomos zapatistas, onde os rebeldes do Exército Zapatista de Libertação Nacional mantém o controle.

Zapatistas

Em 1994, quando o movimento guerrilheiro surgiu, eles chegaram a dominar San Cristóbal de las Casas. Lutando contra a oligarquia mexicana em defesa das populações indígenas, a insurgência chamou a atenção da opinião pública mundial para a luta dos maias, uma vez mais sendo massacrados pelos colonizadores brancos.

Como o governo mexicano ainda não transformou em lei os acordos que previam mais recursos para as populações rurais, a guerrilha continua latente nas montanhas. Volta e meia explodem escaramuças entre os rebeldes e grupos para-militares de extermínio, com o Exército do México fazendo vistas grossas aos massacres dos indígenas.

San Juan Chamula

San Cristóbal de las Casas é uma bela cidade colonial rodeada pelas aldeias maias nas montanhas próximas. Para entrar em contato mais direto com o que restou dessa grande cultura, hoje mesclada com as tradições européias introduzidas pelos conquistadores espanhóis, aluguei uma bicicleta e me enfiei pelas estradinhas em direção aos povoados mais isolados, como San Juan Chamula, 10 km a noroeste de San Cristóbal. Como eles têm um certo receio dos estrangeiros, e não sem razão, é preciso muito tato para viajar por suas terras com um pouco de segurança.

San Juan Chamula está num pequeno vale entre as montanhas, a 2.260 metros de altitude, um dos locais mais sagrados para os indígenas de Chiapas, onde existe uma igreja para a celebração dos seus rituais religiosos, uma curiosa mistura entre suas crenças tradicionais e a fé cristã.

Igreja

Assim que entrei na igreja me deparei com as cenas mais inusitadas que já vi em todas as minhas andanças por este mundo: rituais pagãos num templo cristão. Um forte cheiro de incenso e o som de acordeões, violas, chocalhos e tambores enchiam o ambiente com músicas religiosas tradicionais da cultura maia.

O piso estava coberto com folhas de pinheiros, um elemento capaz de absorver a energia negativa trazida pelos peregrinos e enviá-la para o mundo inferior, o lugar embaixo da terra onde vivem os espíritos, tanto os bons quanto os maus. As paredes laterais da única nave estavam repletas de santos católicos em altares envidraçados ornamentados com muitas flores. No fundo, o altar principal tinha uma enorme imagem de São João Batista, padroeiro da cidade. Os padres católicos apareciam apenas para fazer os batizados.

Rituais pagãos

Tão logo me descobriram no templo, um guardião veio me avisar que não poderia fotografar nem fazer anotações. Na entrada, mulheres com os filhos no colo estavam sentadas no chão. À frente delas, todas voltadas para a lateral esquerda, havia cinco incensários e uma carreira de velas brancas acesas. À frente das velas notei três mesas, onde homens passavam roupas, toalhas de mesa, cortinas e alguns elementos decorativos, como fitas. Ao longo da igreja havia diversas mesas, todas sendo utilizadas pelos passadores, rodeados pelos fiéis.

Elas haviam sido lavadas numa fonte sagrada e secadas no pátio em frente à igreja. Agora estavam sendo abençoadas para mais tarde serem trocadas, quando os fiéis voltassem para suas casas, cerimônia que acontece uma vez por ano e que, para minha sorte, coincidiu com a minha visita à vila.

Música religiosa

No lado esquerdo dos passadores havia um grupo de músicos, formado por quatro harpas, dois tambores, quatro violas de 12 cordas, duas gaitas e um trompete. Um pouco mais adiante jaziam no chão quatro enormes sinos de bronze. Em frente aos sinos, outro grupo musical: quatro violeiros, quatro harpistas e três gaiteiros. Um pouco mais adiante, quatro homens tocavam chocalhos.

Havia uma infinidade de mesas com velas acessas, milhares delas, todas brancas. No chão, entre os inúmeros peregrinos sentados, mais velas. Espalhados pela capela pequenos grupos faziam suas orações, alguns em pé, outros ajoelhados. Um homem à minha frente, tão logo terminou de recitar o seu mantra, fez o sinal da cruz na testa, no nariz, na boca e no peito.

Coca Cola sagrada

Poderosos xamãs, previamente contratados, benziam os fiéis, rezando e abençoando inúmeras garrafas de Coca Cola, um ritual que as transformava sagrada, como Jesus fizera com o vinho. Quando os freis católicos voltaram para a Europa, levando junto o vinho, os indígenas passaram a produzir um fermentado a partir do milho para usar nos rituais religiosos, já que a região não produzia uva. A bebida demorava a ficar pronta, além de ser cara.

Quando surgiram os refrigerantes na região, eles passaram a usá-los em suas cerimônias, pois eram baratos e existiam em abundância. Atualmente, em todas as celebrações maias, garrafas e mais garrafas de Coca Cola são benzidas e transformadas em bebidas bentas, utilizadas para curar doenças e afastar os maus espíritos.

Quando alguém precisa de auxílio procura um xamã, poderosos curandeiros cujos poderes foram herdados dos seus antepassados, pois só podem ser xamãs filhos de xamãs, uma linhagem religiosa que remonta ao tempo dos antigos maias. O xamã fornece uma lista do que deve ser comprado e agenda uma sessão na igreja.

Se as necessidades são espirituais, ele pede que levem velas, Coca Cola, ovos, galinha preta, abóbora e um pouco de ponche. Se as necessidades são materiais, como o pedido de uma boa colheita, o xamã solicita pétalas de flores, velas e folhas de pinho. Se o problema é físico, ele pede os mesmos itens utilizados no ritual para purificar o espírito acrescido de remédios florais.

Mantras em tzotzil

As velas são acesas e o xamã inicia suas orações, um mantra infindável pronunciado em tzotzil, o dialeto maia local, pedindo aos santos pelas realizações em questão. Ele passa os ramos de pinho no corpo do peregrino e depois em algumas das imagens dos santos, ritual repetido diversas vezes. Depois pega a galinha e faz os mesmos gestos. No final, quebra o pescoço da ave e a coloca no chão, para que as energias negativas baixem ao mundo inferior.

Então ele quebra o ovo, despeja a gema num copo e coloca a casca entre os ramos de pinho, apertando para que eles se quebrem completamente, jogando-os fora. O xamã abençoa a Coca Cola e o ponche para que os fiéis bebam, como Jesus Cristo fez com os apóstolos na Última Ceia, encerrando o ritual.

Como não pude fotografar nem fazer anotações dentro da igreja, eu memorizava as cenas e saía para escrever na praça em frente. Isso me fez voltar diversas vezes à capela, chamando a atenção do guardião. Para completar o meu trabalho acabei usando alguns disfarces, não seria bom cair na ira dos supersticiosos locais. Não são raros os linchamentos de estrangeiros acusados de práticas desrespeitosas aos cultos maias em Chiapas e na Guatemala.

Visitei muitas aldeias maias nas semanas em que permaneci em San Cristóbal de las Casas, cada qual com seus próprios rituais culturais.

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Produção: 360 Graus - Multimídia
Contatos: ortiz@360graus.com.br