
Área externa do grande mercado
Foto: Airton Ortiz

Defumação para enfrentar os maus espíritos no mercado
Foto: Airton Ortiz

Praça de alimentação no mercado
Foto: Airton Ortiz
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Na Rota Maia - 06 (final)
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As causas da grande tragédia
Após meu prolongado périplo pelas vilas maias no sul do México peguei um ônibus para Comitán e de lá outro para Ciudad Cuauhtémoc, quatro quilômetros ao sul da fronteira com a Guatemala, entre altas montanhas cobertas de pinheirais. Uma linha imaginária divide os dois países, facilitando a fuga dos guerrilheiros de um lado para o outro sempre que estouram guerras civis
nessa conturbada região centro-americana.
Subi caminhando pelo acidentado relevo e cruzei a fronteira na cidadezinha de La Messila, onde tomei outro ônibus para Huehuetenango, na cordilheira Chuchumatán, coração do altiplano guatemalteco, uma área cheia de vales e montanhas, onde as pequenas aldeias maias reúnem as populações que aos poucos foram se aglutinando após o colapso da grande civilização.
Final do império
Os maias não tinham mais um estado organizado quando os europeus chegaram na região. Após a desintegração das suas grandes cidades, a população, esparsa pelas florestas, ou vivendo em pequenos assentamentos, foi cruelmente subjugada pelos conquistadores espanhóis.
Em 1524, quando Pedro de Alvarado entrou na Guatemala, os maias de K’umarcaaj, liderados pelo rei Tecún, foram derrotados. Os espanhóis queimaram vivos os líderes nativos e destruíram a pequena cidade, hoje um amontoado de ruínas onde famílias camponesas fazem piqueniques nos finais de semana, a maioria sem ter noção do que fora a região no passado.
Passei pela bela cidade colonial de Quetzaltenango e me instalei na pequena Chichicastenango, a 20 quilômetros das ruínas de K’umarcaaj, na parte mais remota da selva cobrindo a serra de Chiacús. Chichi, como a cidadezinha é chamada pelos locais, é um dos lugares mais extraordinários do
que sobrou da grande cultura. A mais de dois mil metros de altitude, perdida em meio às altas montanhas, ela amanhece coberta pelas nuvens, envolta numa neblina que lhe dá contornos de contos de fada.
Na cidade existem dois sistemas administrativos e religiosos: a Igreja católica e o governo da Guatemala nomeiam os sacerdotes e funcionários públicos enquanto os indígenas elegem suas próprias autoridades civis e religiosas. Mesmo assim, a mescla cultural persiste, pois assisti na igreja de Santo Tomás uma missa falada em quiché, o dialeto maia local.
Embora se trate de um povo cordial, caminhar pelos arredores da cidade para melhor apreciar suas belezas naturais requer um pouco de cautela. Em 2000, um turista japonês foi assassinado por uma multidão em fúria após ter sacado fotos de uma criança que ele encontrara brincando na beira da trilha. Interrogada pela polícia, mais tarde, a população alegou que o estrangeiro
estava praticando rituais satânicos e ninguém foi condenado.
Mercado
Em Chichicastenango existe o maior mercado maia da atualidade. Nas quintas-feiras e nos sábados campesinos de todas as partes da região se reúnem na praça em frente à igreja para vender os produtos que têm em excedente. No entardecer do dia anterior as barracas começam a ser montadas, primeiro na praça, depois se estendendo pelas ruas laterais.
Na manhã seguinte, praticamente toda a cidade se transformou num grande mercado, onde é vendido tudo que se possa imaginar, especialmente produtos agrícolas cultivados no altiplano e materiais utilizados nas cerimônias religiosas, pois a vinda à cidade também é aproveitada para os indígenas realizarem seus cultos religiosos.
Caminhando pelo mercado de Chichi se tem a real dimensão da tragédia que foi a derrocada dessa grande civilização. As atividades de subsistência dos indígenas remanescentes sequer servem para lhes fornecer alimento suficiente para uma vida digna, o preço pago pela forma desastrosa como as elites maias administraram o seu povo.
As causas do colapso
O abandono repentino das poderosas cidades, muitas no seu auge, como aconteceu em Copán, no norte de Honduras, retratada no início dessa série de reportagens, tem levado os historiadores a um grande debate desde o século XIX.
Depois de muitas teorias mirabolantes, algumas sugerindo serem os maias povos extraterrestres, a situação foi sendo esclarecida à medida que estudos científicos aplicados pelas universidades norte-americanas trouxeram informações mais precisas sobre o passado na América Central.
A mais aceita das teorias utilizadas para explicar o colapso de Copán, e que vale para todo o Mundo Maia, se fixa na sua grande população na época do seu declínio. A cidade tinha 24 mil habitantes vivendo na parte mais fértil do vale, ocupando um espaço anteriormente destinado à agricultura.
Essa grande densidade populacional empurrou as lavouras para as encostas das montanhas, onde as terras não eram produtivas o suficiente para alimentar toda a população. Independentemente disso, os governantes exigiam cada vez mais impostos, pagos na forma de grãos, para alimentar a nobreza e construir grandes templos em suas próprias homenagens.
Desequilíbrio ambiental
Recentes investigações arqueológicas indicam que durante o século VIII o vale do rio Copán perdeu as florestas que cobriam as encostas das suas montanhas, passou por longos períodos de seca, sofreu erosões massivas do solo e repentinas inundações durante a estação das chuvas. Assim, ao destruir seu entorno ambiental, a poderosa cidade de Copán precisou ser abandonada
por seus habitantes, as lavouras entraram em colapso.
Com a grande fome que se instalou, os indígenas se revoltaram contra seus reis, pois cabia a eles administrarem a relação com o deus Chac, a divindade das chuvas, responsável pelas boas colheitas. A guerra civil destruiu o Estado organizado, a nobreza civil e religiosa desapareceu e a população, revoltada, destruiu o que pode e voltou para o campo, lutando pela própria
sobrevivência.
Mesmo sem um Estado organizado, o vale ainda se manteve densamente povoado pelo menos até o ano 1.200. A partir dessa época, os moradores da região foram diminuindo até se resumirem às pequenas aldeias encontradas pelos espanhóis quando chegaram na América Central. Estudos recentes sugerem que a diminuição da população foi uma resposta da própria natureza, pois quando
grandes períodos de fome assolam uma região a fertilidade das mulheres cai a níveis impossíveis de repor a população que vai envelhecendo.
Lição
A grande lição que os arqueólogos vêm aprendendo com o estudo da decadência maia diz respeito à forma como o homem se relaciona com o meio ambiente. Para os cientistas, se não podemos prever o futuro, pelo menos podemos aprender com o passado, e ele ensina a preservar o entorno natural onde vivemos. Não apenas porque as mudanças climáticas estão pondo em risco o futuro
do planeta, mas da própria Humanidade.
Ecologistas norte-americanos acreditam que se a espécie humana se extinguisse, a Terra recuperaria o seu equilíbrio ecológico em poucos séculos. Por isso, a relação homem-natureza é mais importante para os humanos do que para as plantas e os demais animais que vivem no planeta, pois as maiores vítimas das catástrofes ambientais são os próprios seres humanos, lição que
os maias aprenderam a custas da sua própria civilização.
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