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Na Trilha da Humanidade - 11

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Os povos do Sul

Minha viagem da cidade de Clóvis, no estado norte-americano do Novo México, até El Passo, no estado do Texas, na fronteira com o México, foi de pouco mais de 500 km. Cruzei a ponte fronteiriça a pé e entrei em Ciudad Juarez, no México. Os aduaneiros de ambos os lados estranharam o sentido da minha caminhada, pois nessa região os brasileiros são mais conhecidos por tentarem entrar caminhando do México para os Estados Unidos clandestinamente.

Deixar o asséptico e inodoro interior dos Estados Unidos e entrar no multicolorido e apimentado México foi uma alegria para os meus sentidos tropicais, provavelmente fruto da minha herança ancestral. As ruas da cidade fervilham de gente, os bares estão lotados, os restaurantes funcionam até altas horas e o povo se diverte sem falsos pudores. Come-se bem, bebe-se bem, ouve-se música nas esquinas ─ enfim, é o sangue latino correndo quente nas veias.

Voei da Cidade do México direto para a Venezuela. Não havia sítio arqueológico importante na América Central e eu resolvi passar ao largo da região. Caracas foi uma grande decepção. A cidade é suja e bagunçada, vê-se logo ser fruto de uma administração incompetente. O que salva é a camaradagem dos venezuelanos, um povo alegre e sempre pronto para ajudar os visitantes estrangeiros, especialmente se for um brasileiro. Aliás, a presença do Brasil é marcante no país, a começar pelo ônibus que faz a linha Caracas/Manus, propriedade de uma empresa do Paraná.

México

Quando nossos ancestrais atingiram os trópicos encontraram um novo ecossistema, mais rico e variado, e foram se espalhando pelos grandes altiplanos formados por regiões cobertas por selvas ou terrenos semi-áridos. Desde que saíram da África equatorial estavam novamente diante de um ambiente amplamente favorável ao desenvolvimento de novas formas de vida.

Nessas regiões quentes eles continuaram com seu processo evolutivo, tanto biológico como social, conquistando significativos avanços culturais e tecnológicos de maneira paralela e independente dos que permaneceram no Norte. Essa separação dos seus grupos de origem e sua recombinação interna foi lhes dando características próprias. O novo hábitat produziu uma gama de sociedades, uma resposta adaptativa às suas necessidades de subsistência nesses diferentes ambientes, climas e regiões geográficas. Dessa forma, alguns grupos se concentraram e formaram aldeias e cidades enquanto outros continuaram caçadores-coletores, adaptando-se e gerando estratégias peculiares para enfrentar as dificuldades do seu processo histórico.

Quando os primeiros migrantes chegaram ao atual território do México o encontraram completamente livre das geleiras, pois o gelo cobria apenas os picos mais elevados da região. A grande quantidade de lagos e lagunas formada no centro do país atraiu para suas margens uma ampla variedade de plantas e animais como bisões, mamutes, tigres dente de sabre, leões, lobos, alces, camelos, lhamas, preguiças gigantes, mastodontes, capivaras, cavalos, zebras, ursos, veados e tapires, entre outros ─ movimento logo seguido pelos humanos, agora armados com suas lanças mortíferas.

À medida que o clima foi aquecendo e esses mananciais hídricos desaparecendo, os vestígios das populações humanas que viveram em suas margens foram se acumulando, formando os mais importantes sítios arqueológicos atualmente pesquisados pelos paleontólogos.
No norte do México o Homem de Clóvis conviveu com outros grupos humanos que exploravam recursos variados em distintas geografias. As evidências dos mais antigos mexicanos estão concentradas em torno dos fósseis de 41 indivíduos, que vão desde um crânio masculino encontrado quando os operários trabalhavam na construção do metrô da Cidade do México até um esqueleto completo escavado nos arredores da capital. São homens e mulheres de diversas idades e procedentes de muitas localidades.

Quase todos os vestígios humanos no atual território do México estão concentrados no centro do país e apresentam características dos grupos de origem asiática, classificados como mongolóides, especialmente no que diz respeito às suas arcadas dentárias.

O Homem de Tepexpan

Em 1947, o pesquisador Helmut de Terra desenterrou na localidade de Tepexpan, na região metropolitana, os restos ósseos batizados como O Homem de Tepexpan, embora estudos mais recentes o tenham reclassificado como uma mulher com cerca de 1,70 metro. O fóssil foi encontrado a uma profundidade de 48 centímetros no leito seco do antigo lago de Texcoco. O crânio, que estava em boas condições, é arredondado e, segundo a datação pelo carbono 14, viveu há mais de 11 mil anos.

O professor Javier Romero, do Instituto de Antropologia e Historia, informou que o esqueleto estava orientado de noroeste a sudoeste, enquanto os cadáveres indígenas enterrados no México eram colocados de norte a sul, além de serem ossadas completas. Por tanto, não se tratava de um enterro, mas, pela aparência, de um individuo que caiu no estrato em que foi encontrado antes da sua formação geológica. Além disso, provavelmente o esqueleto tenha sido devorado por animais antes de ser totalmente encoberto pela erosão, motivo pelo qual não estava completo.
Essa hipótese foi reforçada pouco tempo depois quando pesquisadores do Instituto de Antropologia e Historia resgataram duas ossadas de mamutes em Santa Isabel Ixtapan, uma delas com uma ponta de flecha incrustada em suas costelas. Especula-se que ao serem acossados pelo barulho provocado pelos caçadores, os animais penetraram profundamente no pântano onde foram mortos.

Apesar de caçar em grupo, não é provável que O Homem de Tepexpan, ou seus parentes, já estivesse organizado em tribos. Provavelmente se tratava de hordas errantes com a tendência de se dispersar em novos bandos em caso de um crescimento populacional muito rápido, capaz de colocar em perigo seu grupo por falta de alimentos.

América Central

Uma das conseqüências do desgelo glacial foi a elevação do nível do mar em cerca de 120 metros, inundando as planícies costeiras da América Central, forçando suas populações a adotarem novos padrões econômicos e sociais que lhes permitissem não apenas subsistirem mais desenvolverem novos padrões de vida.

As terras altas foram então ocupadas por grupos que tinham um padrão de vida nômade cíclico e que viviam da coleta de plantas complementadas com a caça de pequenos animais, usualmente não maiores do que um veado. Assim, a caça dos grandes animais foi perdendo importância. Eram famílias extensas que se uniam na época das chuvas e se dispersavam em pequenos grupos durante as estações áridas. Esse padrão de nomadismo estacionário lhes permitia aproveitar sucessivamente os recursos das distintas zonas ecológicas que recorriam, o que resultou em civilizações bem desenvolvidas nos milênios seguintes.

América do Sul

As selvas tropicais também foram ocupadas por pequenos grupos familiares nômades de caráter igualitário. No entanto, eles não desenvolveram padrões migratórios cíclicos devido a grande disponibilidade de alimentos na selva. A tecnologia empregada para a fabricação de ferramentas de pedra continuou primitiva, utilizada especialmente para trabalhar a madeira e partir frutos de casca dura. Viviam particularmente da coleta de alimentos, utilizando-se da caça de pequenos animais de forma muito reduzida.

No norte da América do Sul, como na Venezuela, esse período também produziu uma grande diversidade de culturas e modos de vida. Vestígios humanos encontrados em Taimá-Taimá, poucos quilômetros ao oriente de Caracas, indicam que nossos ancestrais já viviam naquelas florestas há mais de 11.000 anos.

Após cruzar o isto da América Central e chegar na parte norte da América do Sul, o caminho migratório natural do homem pré-histórico foi continuar buscando terras mais quentes, cada vez mais perto do Equador, encontradas tão logo entrou no Brasil.

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Produção: 360 Graus - Multimídia
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