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Na Trilha da Humanidade - 12

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Os primeiros brasileiros

Amazônia

Como nossos ancestrais pré-históricos, também entrei no território brasileiro pela Amazônia, o caminho natural de quem se desloca do Norte para o Sul em busca de terras mais quentes. Viajei de ônibus de Caracas para Cidade Pacaraima, onde cruzei a fronteira e ingressei em Roraima. Percorri toda a BR 174, passando por Boa Vista e chegando em Manaus, quase 2 mil km de distância.

Em Manaus, juntamente com mais 130 passageiros, embarquei no Lírio do Mar II, um rústico barco com casco de madeira. Descemos pelo rio Amazonas durante três dias até a pequena cidade de Monte Alegre, já no estado do Pará, onde estão as pinturas rupestres mais antigas do Brasil, feitas há mais de 11.200 anos, primeiras evidências do homem pré-histórico em nosso território.

Monte Alegre

Cheguei à pequena Monte Alegre, na margem esquerda do rio Amazonas, seis horas depois do nosso barco ter cruzado pela desembocadura do rio 
Tapajós, em Santarém. Fretei uma picape Toyota 4X4, único veículo na cidade capaz de percorrer os 50 km de trilhas pelo interior da selva que levam à cordilheira do Ererê, onde fica a serra da Lua, primeiro local a ter suas pinturas rupestres estudadas. Nas cores vermelha e amarela, elas representam o sol, a lua e figuras do cosmo.

Um pouco mais adiante, na serra Pay-Tuna, encontrei a Caverna do Pilão, ou Caverna da Pedra Pintada, onde, em pesquisas realizadas no início dos anos 90, a arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt encontrou os resquícios humanos aceitos pela maioria dos estudiosos como sendo os mais antigos do Brasil. Suas escavações na gruta revelaram, nas camadas mais profundas, ossos, dentes e pigmentos de pinturas e pedaços de paredes pintadas. As camadas onde foram encontradas essas evidências foram datadas em 11.200 anos.

Respaldados por 56 datações absolutas, associadas a instrumentos de pedra lascada, comprovadamente produzidos pelo homem, esses resultados, publicados na prestigiada revista Science, uma das mais respeitadas do planeta, sepultaram de vez a teoria de que o Homem de Clóvis foi o primeiro habitante no Novo Mundo. Além disso, o trabalho da paleontóloga norte-americana comprovou a existência de uma civilização organizada que ocupou a Amazônia nessa época, confirmando à teoria de que os humanos entraram no Brasil por essa região.

Lagoa Santa

Após visitar Monte Alegre embarquei no Viajeiro IV, um barco com casco de madeira, e desci pelo rio Amazonas durante três dias até chegar a Macapá, no Amapá, onde tomei um avião para Belo Horizonte. Do aeroporto fui direto para a cidade de Lagoa Santa, sede informal da Área de Pesquisa Arqueológica de Lagoa Santa, uma região formada por diversos municípios.

O primeiro deles a visitar foi Santana do Riacho, onde existem pinturas rupestres com cerca de 11 mil anos decorando as paredes de uma caverna utilizada como antigo cemitério. Em um grande paredão na serra do Cipó, nas terras de propriedade da usina hidrelétrica Coronel Américo Teixeira, nesse importante sítio arqueológico administrado pela Universidade Federal de Minas Gerais, e cuja visitação está proibida, pude fotografar pinturas semelhantes às encontradas na Amazônia, indícios de uma estreita ligação entre os povos que habitaram essas duas regiões.

Luzia

Em 1974, uma missão arqueológica franco-brasileira, liderada por Annete Lamming Emperaire, iniciou um trabalho de escavações numa fenda rochosa conhecida como Lapa Vermelha IV, um sítio arqueológico situado no município de Pedro Leopoldo. A 12 m de profundidade eles encontraram os primeiros fragmentos de uma mulher jovem, um dos mais antigos esqueletos das Américas, que se consagraria no meio científico como Luzia, a primeira brasileira de que se tem notícia.

De acordo com a posição estratigráfica do fundo da fenda onde ela foi localizada, bem como datações realizadas com materiais desenterrados acima e abaixo dos seus fragmentos ósseos, nossa antiga conterrânea teria vivido entre 11.000 e 11.500 anos atrás.

Em 1999, uma reconstituição facial de Luzia feita por Richard Neave, da Universidade de Manchester, Inglaterra, mostrou que ela apresentava morfologia muito distinta daquela dos ameríndios atuais, sendo mais semelhante aos africanos. Para o antropólogo Walter Neves, da USP, isso significa que duas populações biologicamente distintas entraram nas Américas. A primeira, caracterizada por uma morfologia generalizada, semelhante à dos africanos atuais, a qual Luzia pertence, teria cruzado o Estreito de Bering antes do aparecimento dos primeiros grupos de morfologia mongolóide na Ásia. Após o surgimento das características mongolóides dessas populações, que atualmente caracteriza a maior parte dos asiáticos, um novo grupo mais uma vez entrou nas Américas via Estreito de Bering.

Esses últimos migrantes acabaram superando os primeiros migrantes que aqui chegaram, o que explica o fato dos nossos índios serem atualmente mais parecidos com os asiáticos do que com os africanos.

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Produção: 360 Graus - Multimídia
Contatos: ortiz@360graus.com.br