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Na Trilha da Humanidade - 03
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Proto-humanos
Nossa expedição saiu de Nairóbi (1.700 m de altitude), capital do Quênia, em direção ao norte do país, no começo da manhã. Poucos quilômetros depois descemos para o Grande Vale Rift, onde passamos à direita da cratera do vulcão junto ao lago Naivasha, deixamos para trás o lago Elmenteita, coberto de flamingos, e atingimos o lago Nakuru. Continuamos por dentro do Rift até pouco depois do meio-dia, quando cruzamos a linha do Equador. No meio da tarde chegamos ao pé das montanhas Tugen, onde fomos conhecer a paisagem e as pessoas que atualmente moram nesse local, onde viveu o mais antigo dos nossos antepassados de que se tem notícia.
Em Marigat, a aldeia ao pé das montanhas Tugen, contratamos um garoto para nos mostrar a região. Ele me contou ser um mestiço, já que sua mãe pertencia à tribo Tugen e seu pai à tribo Turcana. Os turcanas são nômades, por isso estão se mesclando com outras tribos em todo o Quênia. Subimos por uma encosta íngreme, descemos um vale coberto por acácias espinhentas, subimos outra encosta e finalmente chegamos ao topo do morro, onde fomos conhecer seus moradores, uma comunidade formada por menos de cem pessoas espalhadas pelas colinas onde outrora viveu o nosso antigo parente.
Entre os locais, ficamos fascinados com Tériki Komen e seus quatro filhos pequenos. Ela ria muito, feliz com nossa curiosidade, pois dificilmente via um branco pelas redondezas. Tirei-lhe uma foto e quando lhe mostrei sua imagem no visor da câmera, surpreendeu-se emocionada. Para meu espanto contou-me, contente, que era a primeira vez que via seu próprio rosto.
Orrorin tugenensis
Na primavera de 2001, os paleontólogos Martin Pickford e Brigitte Senut, do Museu de História Natural de Paris, encontraram espalhados por quatro lugares dessas montanhas os restos de uma criatura que chamaram de Orrorin tugenensis.
Para fazer a datação das ossadas, os pesquisadores reuniram dezenove amostras, incluindo pedaços de mandíbulas, dentes isolados, ossos dos dedos e dos braços e alguns ossos do fêmur. Analisando esse material e a composição do terreno rochoso onde eles foram encontrados, os cientistas chegaram a um resultado surpreendente: os fósseis tinham cerca de seis milhões de anos!
O Orrorin exibe várias características que o colocam na família dos hominídeos, especialmente aquelas que indicam ter sido ele um bípede. Seu fêmur, por exemplo, é muito semelhante ao humano. Em outros aspectos, no entanto, ele era um animal primitivo: seus dentes caninos eram, comparados aos dos humanos, grandes e pontudos, e os ossos de seus braços e dedos conservam adaptações para escaladas.
Freqüentemente – mas não habitualmente – bípede, ele passava parte significativa do tempo nas árvores. Isso não o exclui da condição de hominídeo, pois é quase certo que o bipedalismo não surgiu repentinamente. Em vez disso, nosso parente dentuço pode simplesmente não ter desenvolvido todos os traços complementares exigidos para o bipedalismo habitual, características encontradas em fósseis mais recentes.
Os vestígios arqueológicos da fauna existente em Kapsomin indicam que ela era formada por pequenos macacos e impalas de tamanho médio. A presença desses animais sugere que o local onde vivia o Orrorin fosse um misto de campos úmidos pontilhados por inúmeros capões de mata fechada exatamente como ainda é, hábitat ideal para quem tanto andava em pé como se deslocava pelas copas das árvores.
Enquanto caminhava pelas encostas da montanha fui dando-me conta de que se eu também tivesse a habilidade de me deslocar pelas árvores, andaria bem mais rápido.
Ardipithecus ramidus kadabba
Uma grande evidência do bipedalismo rotineiro veio à tona poucos meses depois da apresentação do Orrorin, com a descoberta de fósseis um pouco mais novos na Etiópia, enquadrados em um novo gênero: Ardipithecus ramidus.
Pertenceriam a espécie chamada Ardipithecus ramidus kadabba e teriam entre 5,8 e 5,2 milhões de anos. Pela primeira vez as ossadas encontradas incluíam uma falange do pé completa, um achado extraordinário em busca do bipedalismo.
Ardipithecus ramidus ramidus
No começo dos anos 1990 os cientistas já haviam exposto uma compilação de fósseis com 4,4 milhões de anos representando uma outra espécie de Ardipithecus ramidus, bem mais recente, o Ardipithecus ramidus ramidus. Suas características realçam o bipedalismo, confirmando as novas habilidades lentamente adquiridas pelos nossos ancestrais. O orifício ovalado existente na base do seu crânio, o forâmen magno, através do qual a medula espinhal se liga ao cérebro, esta na posição vertical aos olhos, sugerindo que sua cabeça balançava na ponta da coluna vertebral, como os humanos modernos.
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