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Na Trilha da Humanidade - 04

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Australopitecos

Após visitarmos as montanhas Tugen dormimos às margens do lago Baringo e no dia seguinte continuamos nossa expedição para o norte do Quênia, em direção à bacia sul do lago Turcana. A estrada asfaltada ficou para trás e nosso jipe mergulhou em trilhas pedregosas ao lado de sinuosos desfiladeiros pelo solo irregular do Grande Vale Rift. Passamos por uma região agitada por conflitos tribais e ao anoitecer montamos acampamento ao lado de um belo rio, na cabeça de um cânion formado pelos montes Ngiro (2.752m), Porale (1.990m) e Supulo (2.066m).

As tribos do noroeste do Quênia brigam constantemente entre si por causa dos campos para seus rebanhos de cabras e acaba sobrando violência para os incautos viajantes que passam pelas redondezas. Mas cruzamos a região dos samburu sem problemas, embora Ngungiri estivesse preocupado. Eles são agressivos e o nosso motorista temia que ao passarmos por suas aldeias eles apedrejassem o jipe, pois andávamos muito devagar devido ao mau estado da estrada.

Na manhã seguinte cruzamos uma área desértica, outrora submersa sob as águas do Turcana, agora uma imensidão vazia coberta apenas por rochas e pedras vulcânicas. No meio da tarde chegamos ao nosso destino, a vila de Loyangalani, onde vivem as tribos Turcana, El-Molo, Rendille e Samburu. 

Nesta pequena aldeia, na margem sudeste do Turcana, ficamos numa cabana feita de palha, igual à dos moradores locais, pois não havia outra forma de abrigo. Aqui moram pessoas de diversas tribos e como os costumes entre eles são diferentes, às vezes causam alguma confusão. Nosso anfitrião na aldeia me contou que era da tribo rendile. Para casar com uma mulher da mesma tribo precisaria dar ao pai dela apenas 8 vacas. Mas ele estava namorando uma moça turcana e precisaria dar ao pai dela como pagamento 100 cabras, o que ele não tinha.

Australopithecus anamensis

Na bacia sul do lago Turcana, a sudoeste de onde acampamos, encontra-se um dos principais sítios arqueológicos da região. 
Uma equipe dirigida pela zoóloga Meave Leakey, do Museu Nacional do Quênia, desenterrou nessa região dois maxilares inferiores quase completos, um maxilar superior e uma face inferior completos, os terços superiores e inferiores de uma tíbia, pedaços de crânios e vários conjuntos de dentes, todas as evidências sugerindo que seu dono fosse um animal bípede.

Nos chimpanzés, a cabeça da tíbia, próxima do joelho, lembra a forma de um “T”, enquanto na tíbia encontrada na bacia sul do Turcana assim como nos humanos a cabeça do osso é mais larga em razão da presença de mais tecido ósseo esponjoso, necessário para absorver impacto em criaturas bípedes. Outro aspecto importante foi que pela primeira vez se identificou em nossos ancestrais um acentuado dimorfismo, a diferença física dentro da mesma espécie entre indivíduos de sexos opostos.

Após cuidadoso estudo dos fósseis os cientistas perceberam que, em relação a detalhes de anatomia, inclusive no que diz respeito aos seus pesos, esses indivíduos eram suficientemente diferentes dos hominídeos anteriormente conhecidos, devendo ser classificados numa nova espécie. Assim, eles a nomearam Australopithecus anamensis, recorrendo à palavra turcana anam  lago.

Ian McDougall, da Universidade Nacional da Austrália, determinou a idade da camada de cinza vulcânica que cobre a maior parte dos fósseis nesse sítio em 4 milhões de anos, a idade mínima do Australopithecus anamensis.
Os canais do rio que depositou os sedimentos estavam provavelmente alinhados com estreitos trechos de florestas que cresciam nas suas margens, um terreno que, sob outros aspectos, era aberto. Pesquisadores recuperaram os restos de antílopes e gazelas típicos de terrenos abertos, sugerindo que o Australopithecus anamensis vivia no campo, embora não se afastasse muito da mata ciliar, mantendo sua tradição ancestral. Como ele passava a maior parte do tempo em pé e era capaz de se locomover a passos largos apoiado em apenas dois pés, podemos classificá-lo como um antepassado.

Essa postura ereta desencadeou mudanças profundas, pois eles eram capazes de olhar ao longe e analisar o que estavam vendo, controlando a presença de inimigos em seu território. Além disso, podiam usar as mãos de novas formas, tanto para manipular objetos quanto para atirar pedras e assim afugentar os predadores, habilidades que devem ter impressionado ainda mais as fêmeas da época. Não é difícil imaginar que elas preferissem os mais hábeis, desprezando os trapalhões, transmitindo essa característica para um número cada vez maior de descendentes. 

Eram populações minúsculas, de poucas centenas de indivíduos vagando pelo continente. À medida que essa nova espécie foi se espalhando os proto-humanos foram se extinguindo.

O modo de vida dos australopitecinos, embora fossem arborícolas menos hábeis do que os macacos atuais e bípedes menos eficientes do que os hominídeos tardios, foi bem-sucedido, pois seu gênero sobreviveu durante quase três milhões de anos, período em que espécies desse tipo aparecem várias vezes nos registros fósseis.

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Produção: 360 Graus - Multimídia
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