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Na Trilha da Humanidade - 07
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Humanos modernos
Eu e o Dr. Horst Schejok levamos cinco dias para viajar de Nairóbi a Adis-Abeba, parando apenas para dormir, cerca de 1.500 km. Fomos de ônibus até Isiolo, um dia de viagem. Embora a pequena cidade ainda esteja a 500 km da Etiópia, ela é considerada fronteira norte do Quênia, a partir de onde não existe mais transporte público devido à falta de segurança na região.
O governo etíope desbaratou a Frente de Libertação Oromo, um grupo guerrilheiro que desejava criar um país independente no sul da Etiópia. Eles fugiram para o norte do Quênia, onde minaram as estradas e se transformaram nos temíveis shifta, bandidos que vivem assaltando e saqueando quem passa pela região. Além do mais, as próprias tribos locais, agora com armas pesadas provenientes da guerrilheira, têm travado sangrentas batalhas entre si. Os Estados Unidos, a ONU e o próprio governo queniano desencorajam os estrangeiros a viajarem por terra para a Etiópia.
Mas uma vez por semana o exército organiza um comboio de caminhões e os escolta até a fronteira. Nós pretendíamos pegar carona em algum desses caminhões, por isso nos deslocamos até Isiolo.
Para viajar pela África, além de um certo desprendimento, é preciso também um pouco de sorte. Na manhã seguinte estava saindo de Isiolo com destino a Marsabit, 250 km ao norte, uma Toyota do Ministério da Fazenda. Pedi carona ao motorista e ele topou nos levar. Era tudo que precisávamos: eu tinha certeza que os bandidos jamais atacariam uma viatura oficial.
Levamos um dia sacudindo na caçamba da picape junto com mais três quenianos e uma quantidade incrível de pacotes, malas, verduras e sacolas. Chegamos tapados de poeira, com todos os ossos fora do lugar. Parecia que eu havia saído de um liquidificador. Mas continuava com a cabeça encima do pescoço, o mais importante de tudo, especialmente numa época em que a última moda por estas bandas é decapitar jornalistas cristãos.
Dormimos em Marsabit e na manhã seguinte pegamos um ônibus para Moyale, na fronteira. Está bem, não era um ônibus: um intrépido empreendedor local colocou uma cabine com 30 bancos na carroceria de um pequeno caminhão e lá fomos nós e mais 28 corajosos quenianos escoltados por dois policiais armados até os dentes, um dentro do “ônibus” e o outro encima, no bagageiro externo, uma demonstração ostensiva de que não estávamos para brincadeiras. Se fôssemos atacados, reagiríamos. A metade dos passageiros morreria, mas reagiríamos!
De Moyale até Adis-Abeba levamos dois dias. No primeiro, 15 horas dentro de um ônibus fabricado pela Fiat em 1950; no segundo, outro tanto em duas caminhonetas. Mas chegamos sãos e salvos na terra onde surgiram os nossos antepassados diretos, atualmente um dos três países mais pobres do mundo.
Homo sapiens sapiens
Em 1967, os remanescentes fósseis mais antigos pertencentes aos membros dos humanos modernos foram encontrados por um grupo de paleontólogos quenianos liderados por Richard Leakey, perto da vila Kibish, no vale do rio Omo, no sudoeste da Etiópia. Na época, Leakey estimou a idade dos vestígios em 130 mil anos.
Em fevereiro passado, a Universidade Stony Brook, de Nova Iorque, distribuiu um comunicado informando os resultado das novas pesquisas realizadas por um grupo de cientistas internacionais no vale do rio Omo. O estudo determinou uma nova idade para esses fósseis: impressionantes 195 mil anos! Analisando sua geologia e testando exemplos de rochas com modernas técnicas de datação baseadas na deterioração da radioatividade do carbono, eles estimaram a idade dos sedimentos vulcânicos abaixo dos fósseis em 196 mil anos. Em seguida, encontraram evidências de que a camada de sedimentos fossilizados foi depositada logo depois.
Essa nova datação, ao contrário da estimado por Richard Leakey, está mais de acordo com os resultados obtidos pelas análises genéticas das populações atuais, que determinam 200 mil anos para o surgimento da nossa espécie.
A nova datação dos fósseis do rio Omo também reforça a teoria segundo a qual os humanos modernos surgiram na África e de lá se expandiram pelo mundo, uma segunda lava de migrantes, suplantando as espécies encontradas pelo caminho e povoando a Terra com sua etnia.
Classificados como Homo sapiens sapiens, inicialmente esse grupo era muito pequeno, ocupando uma área menor do que o Rio Grande do Sul. Embora tenham sido ameaçados de extinção em algumas ocasiões – para a felicidade e regozijo geral de todos nós –, por estarem melhores adaptados ao meio ambiente do que seus antecessores esses mutantes conseguiram sobreviver. Melhor do que isso: após um certo tempo, começaram a se expandir.
Primeiro dentro do continente, marchando para o sul. Um fóssil de homo sapiens sapiens com cerca de 100 mil anos de idade foi encontrado na África do Sul. Depois para outras terras mais distantes.
Seguindo as pegadas deixadas há mais de um milhão de anos pelo Homo erectus, eles deram início a uma segunda diáspora africana. Começaram a se espalhar para o norte em busca de outros territórios, subiram pelo vale do rio Nilo até o Mediterrâneo, viraram à direita, atravessaram a península do Sinai e chegaram ao Oriente Médio.
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