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Na Trilha da Humanidade - 08

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A grande jornada
A fronteira da Etiópia com a Eritréia, no norte, estava fechada, os países têm disputas territoriais. Eu poderia ir para o Sudão, mas não conseguiria autorização para atravessar a fronteira para o Egito. Eu já havia tentado cruzar essa fronteira no ano passado, mas fora em vão. Imagino que o Homo sapiens sapiens não encontrou tantos problemas para viajar da Etiópia para o Oriente Médio. Agora, para mim só havia um meio de seguir para Israel: Etiopian Airways.

Israel parece um acampamento militar. Policiais fardados, policias à paisana, policias camuflados, militares e jovens prestando o serviço militar formam a maioria da população. Garotas e garotos imberbes não largam seus fuzis nem para irem ao shopping fazer um lanche com os amigos. Enquanto estão prestando o serviço militar formam um exército pronto a entrar em ação a qualquer momento.

A travessia da África foi exaustiva. Por isso, após visitar os sítios arqueológicos em Israel resolvi descansar alguns dias em Jerusalém, visitar os lugares santos. Hospedei-me num albergue para peregrinos pertinho da Igreja do Santo Sepulcro, percorri a Via Dolorosa acompanhando a procissão dos freis franciscanos, visitei o túmulo da Virgem Maria no Monte das Oliveiras, conheci o Muro das Lamentações e a Mesquita de Omar, e percorri demoradamente as ruelas do grande mercado. Cristãos, Judeus, maometanos, ateus, árabes, palestinos, Israelenses e pessoas do mundo todo se esbarram pelas aléias escuras da Cidade Antiga, a mais importante encruzilhada do mundo desde o tempo do Homo erectus.

No domingo peguei um ônibus israelense até o muro que Israel está construindo para protegê-lo dos terroristas palestinos, cruzei uma área desmilitarizada e entrei caminhando no Território Palestino. Peguei um táxi palestino e fui até Belém, assistir à missa na Igreja da Natividade, na gruta onde Jesus nasceu. Jesus Cristo é conhecido no mundo todo como o Príncipe da Paz, mas infelizmente nem Ele conseguiu trazer paz a este canto do mundo, uma área conflagrada desde a época em que o Homo sapiens sapiens chegou para exterminar o nativo Homo neanderthalensis.

Encontro pré-histórico
Fósseis encontrados em Israel sugerem, curiosamente, que neandertais e humanos modernos ali se encontraram e viveram no mesmo local quase que simultaneamente, algumas vezes confundindo os paleontólogos sobre a qual espécie pertence um ou outro vestígio.

Na região de Skhul, a meia hora de Tel Aviv, e não muito longe da moderníssima auto-estrada ligando a capital à cidade de Haifa, no norte, existe uma pequena caverna. Sua boca circular, empoleirada numa plataforma de pedra no meio de uma encosta calcária, tem pouco mais do que duas vezes a minha altura e seu interior se estende apenas um par de passos para dentro da terra fresca e sombria. Não parece grande coisa, nem consta nos roteiros turísticos que eu recebi no Aeroporto Internacional de Tel Aviv, mas num passado remoto foi um local muito importante para os moradores das redondezas: um cemitério.

Em 1932, um grupo de escavadores palestinos, coordenados pela arqueóloga inglesa Dorothy Garrod, descobriu fósseis de 14 indivíduos que se acredita tenham vivido em dois períodos distintos, pois as datações do sítio oscilam entre 120 e 40 mil anos. Além disso, suas características anatômicas apresentam diferenças significativas, algumas bem mais modernas do que outras, uma prova de que o Homo neanderthalensis e o Homo sapiens sapiens compartilhou o mesmo teto, embora não necessariamente no mesmo período.

Arte Moderna
Nossos ancestrais que chegaram ao Oriente Médio trouxeram inúmeros indícios de uma sensibilidade moderna totalmente formada e sem precedentes. Eles não apenas possuíam uma nova tecnologia de trabalhar pedras, baseada na produção de múltiplas lâminas longas e finas extraídas de rochas cilíndricas, como faziam ferramentas de ossos e chifres, objetos menores e extraordinariamente elaborados em relação às propriedades dessas matérias-primas.

Além do mais, trouxeram consigo arte abstrata e objetos decorativos, na forma de entalhes, gravações e espetaculares pinturas de cavernas. Mantinham ainda registros em ossos e em placas de pedras; faziam música com instrumentos de sopro e fabricavam intrincados adornos pessoais com dentes de animais, ossos e conchas. Pintavam os mortos de ocre e os enterravam em covas, em elaborados funerais, com bens de sepultura, sugerindo uma forte crença numa vida pós-morte. Seus locais de moradia eram altamente organizados, com indícios de caça e pesca sofisticados. Para Ian Tattersall, “sem dúvida, essas pessoas éramos nós”. 

Hoje “eles” dominam o planeta, mas naquela época muitas outras espécies de humanos também viviam na África, Europa e Ásia, embora fossem bem diferentes. Denominados pelos cientistas como humanos arcaicos, eram mais numerosos que os homens anatomicamente modernos. Mais de um milhão de humanos arcaicos podem ter povoado o Velho Mundo, enquanto a população de humanos modernos talvez não tenha chegado a algumas dezenas de milhares em certas épocas. Hoje em dia, no entanto, os humanos arcaicos estão extintos; o último sobrevivente se foi há 13 mil anos. Embora tenham habitado a Terra durante centenas de milhares de anos, não deixaram descendentes.

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Produção: 360 Graus - Multimídia
Contatos: ortiz@360graus.com.br