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Na Trilha da Humanidade - 09

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Travessia da Ásia

Atualmente, cada uma das pessoas entre os 6 bilhões que vivem em nosso planeta descende dos andarilhos, caçadores-coletores que povoaram o mundo em busca de um melhor lugar para viver. Mais precisamente: estudos das variações genéticas dos seres humanos revelaram que todos descendemos de uma única mulher que viveu na África em torno de 200 mil anos atrás.

Há mais de 60 mil anos já havíamos ocupado o litoral da Índia e o sudeste asiático, navegando até a Austrália. Nossos ancestrais subiram pela costa do Pacífico para o norte do continente asiático, onde acabaram se encontrando com grupos que haviam migrado do Oriente Médio para a Sibéria, seguindo as grandes manadas de mamutes, bisões e cavalos, graças às suas grossas roupas de couro.

Eles finalmente chegaram na ponta mais oriental da Ásia, de onde podiam ver o Alasca, a ponta mais ocidental do continente americano, a 80 km de distância, no outro lado de uma depressão cuja parte mais profunda tinha apenas 60 metros. Alguns anos após os primeiros humanos terem passado caminhando a pé naquela terra seca, levantando poeira, a depressão se transformou no estreito de Bering, um canal inundado quando a última era glacial começou a arrefecer, por volta de 14 mil anos a.C.

Homo sapiens sapiens high-tech
A mesma jornada que o Homo sapiens sapiens levou mais de 100 mil anos para percorrer, agora eu, um representante do Homo high-tech, fiz em três vôos consecutivos, com oito horas de duração cada um. Voei de Israel para Bombaim, na Índia; de Bombaim para Seul, na Coréia do Sul; e de Seul para Anchorage, no Alasca.

Embarcar no avião da El Al foi um grande estresse. Segundo os critérios de segurança de Israel, eu me encaixava perfeitamente no perfil de quem gosta de explodir aviões: viajava sozinho e, embora morasse no Brasil, cheguei em Tel Aviv procedente da África uma semana antes, visitara a Palestina e agora estava viajando para a Índia. Passei por três interrogatórios, os oficiais tentando me fazer cair em contradição durante uma hora e meia. Implicaram até com o meu laptop, avariado numa dobradiça. Cada policial que me interrogava etiquetava minhas mochilas com autorizações coloridas. O próximo as retirava e colocava etiquetas de outra cor. Sem entender o que significavam, não sabia se minha situação estava piorando ou melhorando. Quando achei que não iriam me deixar embarcar, me liberaram.

Em Tel Aviv eu estava seis horas adiantado em relação ao Brasil; em Bombaim, oito horas e meia; e em Seul, 12 horas. Saí da Ásia às oito da noite e cheguei na América do Norte às onze da manhã do mesmo dia! Por ter cruzado a linha da data, ganhei um dia. E, apesar do vôo ter durado oito horas, no Alasca eu estava cinco horas atrasado em relação ao Brasil. Lembrei-me dos versos do Raul Seixas: “pare a Terra que eu quero descer”.

Cruzar fronteiras sempre é motivo de estresse, seja na pobre África ou na rica América. Esta era a 18ª vez que eu entrava nos Estados Unidos, mesmo assim os aduaneiros me complicaram a vida. Para quem viaja por conta própria sempre foi complicado visitar o Tio San e as coisas pioraram muito após o famigerado 11 de Setembro. Agora, inventaram uma nova norma burocrática absurda: exigir a passagem de volta. Expliquei os propósitos da minha viagem, motivo pelo qual não voltaria para a Coréia do Sul, mas seguiria para o Brasil. Eles queriam saber quem pagaria minhas despesas enquanto estivesse no país. Expliquei-lhes que minha pesquisa estava sendo patrocinada pela Cia. Zaffari, uma das maiores empresas brasileiras. Um dos policiais pediu-me o telefone para confirmar a informação no Brasil. Dei-lhe o número com tanta convicção que ele desistiu da ligação e mandou-me entrar.

Eu já conhecia o Alasca de longa data, não tive problemas em movimentar-me pela gélida região. Em Anchorage peguei um trem e, 500 km mais ao norte, cheguei à Fairbanks, no centro do estado, em cujas vizinhanças foram encontrados os mais antigos e indiscutíveis traços da presença humana nas Américas, fósseis que datam de 12 mil anos a.C., provavelmente dos caçadores de bisões.

Os primeiros animais a cruzarem da Ásia para o Alasca pela ponte de terra então existente no atual estreito de Bering foram os mamutes, algo que aconteceu há 600 mil anos. Mais recentemente, outros animais também fizeram o mesmo caminho, entre eles os bisões.

No museu da Universidade do Alasca, em Fairbanks, eu pude conhecer o Blue Babe, um bisão com 36 mil anos de idade completamente restaurado, encontrado intacto, graças a permafrost – subsolo permanentemente congelado –, por mineiros nos arredores da cidade.

No lago Healy, a poucos quilômetros da cidade, foram encontradas ferramentas e armas de caça que se parecem muito mais com os utensílios posteriores desenterrado no continente americano do que com os antigos utensílios asiáticos, uma prova de que esses humanos estavam já distanciados da Sibéria e mais próximos dos seus sucessores que acabaram povoando as Américas, cujos vestígios eu pretendia conhecer nas próximas semanas.

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Produção: 360 Graus - Multimídia
Contatos: ortiz@360graus.com.br